PAINEL “SUSTENTABILIDADE E CONSUMO – O ENVOLVIMENTO DOS STAKEHOLDERS”
28 Nov. | 11:00H – 13:00H
Consumo sustentável e transições nas práticas: para além do preço e do deficit de conhecimento
Mónica Truninger Investigadora no Instituto de Ciências Sociais da universidade de Lisboa
Dada a gravidade do problema das alterações climáticas e dos insustentáveis níveis de consumo das sociedades contemporâneas, encontra-se no cerne das preocupações de vários stakeholders (associações, empresas promotoras da responsabilidade social, autoridades e representantes políticos) a mudança dos comportamentos dos consumidores. Mas como mudar estes comportamentos que parecem tão entranhados nas vidas quotidianas dos indivíduos? As respostas das entidades governativas responsáveis têm recaído, na maioria dos casos, na utilização de uma fórmula recorrente para resolver este problema: mexer no mecanismo de preços (através da colocação de penalizações em determinados bens de consumo, tornando este bens mais caros e desincentivando a compra) ou fornecer mais informação aos consumidores sobre os impactos nocivos que determinadas práticas têm no ambiente. Campanhas de informação, sensibilização, publicidade e guias do consumidor verde com conselhos práticos sobre consumos mais sustentáveis são colocados à disposição dos indivíduos, sendo estes muitas vezes considerados como tendo um deficit de conhecimento grande em questões de sustentabilidade e uma falta de vontade para mudar o seu comportamento. Os discursos para a mudança centram-se assim no indivíduo e na sua capacidade de fazer escolhas atomizadas mais sustentáveis. Nesta comunicação, defende-se que estas estratégias de preços, fornecimento de informação (educação para um consumo responsável), bem como os discursos individualistas para a mudança têm uma capacidade limitada de envolver em massa os consumidores. E portanto, de fazer mudar e reverter de forma sistémica os actuais níveis de consumo intensivo de recursos naturais, sendo por isso pouco eficazes na transição para uma sociedade pós-carbono. Sugere-se antes que se deve tomar em conta o entendimento e análise das práticas, das rotinas e dos hábitos (como é que estes se formam, reproduzem e desaparecem); dos sistemas sócio-tecnológicos que ‘trancam’ os consumidores na reprodução de práticas mais intensivas de recursos; às normas e convenções sociais colectivamente organizadas ao longo do tempo que guiam as temporalidades do trabalho, dos espaços de lazer e de consumo; das convenções que regulam as noções de conforto e de bem-estar; as redes de sociabilidade (ex: amigos e família) influenciadoras de trajectórias de acção, entre outros factores. Estes são, porventura, menos visíveis, mas a sua análise e compreensão têm a capacidade de possibilitar uma transição significativa das práticas colectivas, mais do que os mecanismos de preços e as campanhas de educação ou de publicidade que, por si só, não são suficientes.
Rede das Aldeias do Xisto
Bruno Ramos Técnico da rede das Aldeias do Xisto
Introdução: A Rede das Aldeias do Xisto é um projecto de desenvolvimento sustentável, de âmbito regional, liderado pela ADXTUR- Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto, em parceria com 16 Municípios da Região Centro e com mais de 70 operadores privados que actuam no território. A ADXTUR congrega assim as vontades públicas e privadas de uma Região, que se revêem na gestão partilhada de uma marca, na promoção conjunta de um território, na criação de riqueza através da oferta de serviços turísticos e, finalmente, na preservação da cultura e do património do mundo rural beirão. Pelo desenvolvimento integrado do território, contra a desertificação humana e o esquecimento.
Animação diferenciadora: Com o projecto Rede das Aldeias do Xisto, esta zona da Região Centro começa a abandonar o estigma da desertificação humana, do flagelo dos fogos florestais, da inércia do sector privado e da falta de identidade regional. Hoje este território oferece uma marca diferenciadora e identitária, que promove os valores únicos do território, a sua oferta turística e os serviços e produtos dos seus parceiros através de um calendário de eventos culturais únicos, criativos e directamente ligados às tradições locais. Muitos desse eventos estão a dar origem a pacotes turísticos integrados, que juntam ofertas e serviços de vários parceiros. O contacto directo com as populações e as sua cultura, bem como o pleno usufruto da paisagem natural são outro dos atractivos destes eventos, o que torna as Aldeias do Xisto um destino turístico único e diferenciador no panorama nacional.
Social Label:
O Programa das Aldeias do Xisto promoveu ainda os produtos locais, a animação turística das aldeias e a qualificação dos seus habitantes e agentes económicos através de acções de formação profissional. O ponto fulcral de todas estas intervenções está centrado nas pessoas, isto é, há uma estratégia de desenvolvimento que, embora prioritariamente alicerçada no aproveitamento turístico do território, sempre teve como meta final a melhoria das condições de vida das populações residentes, criando emprego e qualificando os recursos humanos de forma a permitir o surgimento de uma nova base económica. Em suma, afirmar as aldeias enquanto património com potencial turístico, com as pessoas e as suas vivências.
A criação da marca: A criação da marca "Aldeias do Xisto" enquanto destino turístico de qualidade, efectivou no terreno uma rede público-privada potenciadora de uma identidade de base regional que catapultou as potencialidades e características exclusivas da Região Centro, criando um posicionamento que afirmou a sua diferença no Mercado de Turismo nacional e internacional. A estratégia de rede, planeada, fez com que houvesse um grande envolvimento com todos os actores do território, nomeadamente técnicos municipais, população residente, entidades e agentes. Numa parceria entre os agentes privados e públicos do território, desenvolveu-se um projecto global de promoção, comunicação e animação que promovesse os valores endógenos do território: natureza, desporto out-door, tradição, património, gastronomia, lazer, alojamento rural. É então neste ponto de viragem que a Associação de Desenvolvimento Pinus Verde, aceita o desafio de se lançar na promoção do território do xisto, tendo nas Aldeias a sua âncora e porta de entrada para a descoberta. Considerando o conjunto das 24 Aldeias do Xisto e o seu potencial em termos de aproveitamento turístico, estamos perante um património cultural, histórico e social que se assume como marca exclusiva da Região Centro. Desenvolver um projecto global de identidade, comunicação e animação, baseado numa rede de parcerias institucionais e privadas, que promova nacional e internacionalmente a oferta turística da Região Centro sintetiza a finalidade da missão levada a cabo pela Pinus Verde, em parceria com todos os agentes do território, através do projecto “Plano Global de Desenvolvimento Sustentado das Aldeias do Xisto”.
Nem tudo o que vem à rede é sustentável
Cheila Almeida Liga para a Protecção da Natureza
A alimentação é a categoria do consumo doméstico com maiores consequências a nível ambiental, sobretudo devido à produção e ao processamento dos alimentos. O peixe e os outros produtos do mar têm uma elevada importância nas nossas refeições e Portugal é o país europeu com maior consumo de peixe per capita. Os recursos marinhos são retirados directamente dos oceanos e são os últimos recursos naturais selvagens utilizados na alimentação dos seres humanos. A exploração intensiva dos recursos marinhos é uma ameaça real e pode ter consequências irreversíveis.
Muitos dos stocks de espécies de peixe com interesse comercial estão em situação de sobre exploração. O que temos de fazer para continuar a comer peixe?
Há vários critérios que podem ser adoptados para consumir peixe de forma sustentável. A alteração de alguns hábitos de consumo é transversal a todos os outros alimentos. Mas o que podemos fazer como consumidores é apenas uma parte da solução. É necessário também envolver as restantes entidades que participam na cadeia, desde de que o peixe que sai do mar até que chega ao nosso prato. E por fim o envolvimento dos produtores e dos consumidores só tem consequências se forem aplicadas medidas para uma exploração mais sustentável, que permita a regeneração do que tiramos do mar. Toda a sociedade tem de estar envolvida porque só assim é que as alterações dos hábitos de consumo podem ser efectivas.
boletim Territórios Sustentáveis 09 > |