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EDIÇÃO Nº 08 |
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Vitória tem uma festa combinada com as amigas, modelo “produção total”. Decide mimar-se. Prepara um banho com sais de banho spa magnitude, gel duche factor A, um champô especializado em cabelos secos, pintados e com caspa casual. O evento merece a utilização de máscara revigorante – “deixe actuar durante 8 minutos”. Lava os dentes com aquela pasta que promete branquear o dente, o típico “sorriso pepsodente”, põe o body lotion, a pele brilha ao jeito da hidratação. Massaja a face com o exfoliante, eliminando-se qualquer célula morta que insista em contaminar a tez. Não dispensa contudo, a utilização de leite de limpeza, o tónico que abre os poros e prepara a pele para o momento da hidratação, prevenção das primeiras rugas e factor de protecção SP25, sem esquecer o óbvio contorno de olhos. Uf! Finalmente a pele está pronta para a maquilhagem. Opta pela base fluída, complementa com o pó compacto, produzindo o look bronze com um leve tom de dourado. Passa o lápis no contorno das pálpebras, a combinação de sombras, o rimel, o batom gloss com efeito Angelina Jolie e finalmente o blush, que enfatiza as maçãs do rosto, para dar “uma corzinha”. Poderia prosseguir pelo infindável rol de cosméticos que prometem a cada mulher a transfomação numa Vénus de revista da moda. O objectivo desta introdução não é contudo o de apresentar uma lista exaustiva do que a indústria da beleza nos disponibiliza, nem sequer fazer uma crítica aos cuidados pessoais. Pretendia apenas pintar um quadro do infindável número e variedade de produtos de beleza que se impõem no mercado, sucessivamente renovados por produtos novos, que prometem melhorar aquele defeitozinho que ainda não tínhamos identificado e que regra geral exibem orgulhosamente o rótulo “testado dermatologicamente”. O sujeito comum poderá imaginar um atelier de estética onde as pessoas são convidadas a se sentar em frente a um espelho de luzes e beneficiam de um tratamento de beleza entre um cházinho e um queque. Contudo, a realidade destes testes não tem nenhum contorno de beleza, sobretudo para os animais (coelhos, cães, gatos, ratos, macacos...) que são sujeitos a um grau de sofrimento que não desejaríamos ao nosso pior inimigo, para que o produto da moda entre no mercado. Os animais têm sido sistematicamente utilizados em experimentação, seja no campo da psicologia, dos testes militares, dos testes de aparelhos, de detergentes e também de cosméticos (estudos indicam que cerca de 25 a 35 milhões de animais são utilizados anualmente em experiências). Ao contrário do que algumas vozes referem, muito poucas experiências realizadas em animais são de facto vitais para a protecção de vidas. Cito apenas dois exemplos do tipo de experiências realizadas. O “teste de toxicidade oral grave”tem como objectivo determinar o nível de toxicidade do produto e consiste, essencialmente, em obrigar animais a engolir o produto em causa (um gloss, rimel, ..), durante um determinado período de tempo, que pode prolongar-se por seis meses. Durante este processo os animais sofrem os sintomas de intoxicação: vómitos, diarreia, paralesia, convulsões e hemorragias internas. Um segundo exemplo de um tipo de teste amplamente utilizado é o teste de irritação ocular de Draize, que consiste em imobilizar os animais e colocar a substância em análise (champô por exemplo) dentro da pálpebra do olho, fechando-a durante um período prolongado de tempo, 3 semanas por exemplo. Os animais são então observados diariamente, para se registarem inchaços, úlceras, infecções e hemorragias. Note-se neste âmbito que não há garantia de que a reacção de um coelho ao produto seja a mesma da de Vitória. O absurdo desta realidade é ainda superior, se se tiver em conta que actualmente existem já diversas alternativas de testagem que não requerem a realização de testes ems animais. O que é que nos confere a nós – humanos - o direito de explorar desta forma os animais não humanos? Trata-se de uma questão ética que se coloca a cada consumidor. Cabe a este o poder de optar por “ser bonito por dentro e por fora”. Ludmila Carapinha, Cores do Globo
Fonte:
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