boletim Territórios Sustentáveis 06

EDIÇÃO Nº 06

Algumas dicas para um consumo responsável de roupa

Na nossa sociedade actual o consumo é omnipresente. Pagamos quase sempre dinheiro, para que outros desenvolvam as actividades por nós. O pronto a vestir por exemplo, é relativamente recente em Portugal. Muitas pessoas costumavam fazer a sua própria roupa. Agora, graças à globalização, aquilo que consumimos pode proceder de locais cada vez mais longínquos. Por isso cada vez faz mais sentido perguntarmo-nos não só sobre a qualidade e o preço, mas também sobre as condições de produção.

Este artigo é baseado no Guia sobre consumo responsável de roupa da Setem (“Guia para el consumo responsable de ropa”, SETEM – Campaña Ropa Limpia, 2ª edición Deciembre 2005 – cujo download pode ser feito no portal www.consumosustentavel.org). Para aqueles que poderão não ter oportunidade de o ler na íntegra, aqui deixamos alguns exemplos do que lá se pode encontrar.

Neste guia é apresentada a informação que deve constar das etiquetas de composição dos produtos têxteis, segundo a legislação vigente e também os vários símbolos que dizem respeito à forma de conservação.

A roupa e o meio ambiente

Ao longo de todo o ciclo de vida da roupa, os momentos que apresentam maiores impactos ambientais são a obtenção das matérias-primas (as fibras naturais obtêm-se maioritariamente de explorações agrícolas intensivas, o que implica o uso de fertilizantes e pesticidas químicos. As fibras artificiais são produzidas em indústrias químicas que vertem os seus resíduos contaminantes para os rios e a atmosfera. As fibras sintéticas, além disso, derivam do petróleo, um recurso não renovável) e a produção dos tecidos (o maior problema deriva do uso de tintas – se bem que estas têm vindo a ser lentamente – principalmente na produção ecológica - substituídas por produtos menos agressivos e pelo uso de substâncias ecológicas e naturais).

São também graves e avessas a qualquer ética ou sustentabilidade, as situações em que se produzem casacos com as peles de animais, principalmente de animais em vias de extinção, ou obtidas através de capturas feitas com brutalidade.

A roupa e os direitos humanos

A grande maioria das roupas que encontramos nas nossas lojas foram produzidas em países pobres.

As empresas proprietárias das marcas, que normalmente são de países europeus e da América do Norte, subcontratam a produção a outros países, pois isso leva a uma redução muito importante dos custos, tanto laborais como fiscais (e tem também impactos no aumento dos transportes e consequente poluição). Aí as condições de trabalho são muito precárias: 1) as trabalhadoras (na sua maioria mulheres) recebem um salário que apenas lhes permite sobreviver com dificuldade. É habitual que comecem a trabalhar aos 14 anos e que não possam continuar para além dos 25 anos, devido ao grande desgaste que sofrem nos postos de trabalho; 2) muitas vezes não existem contratos formais e as empresas despedem as trabalhadoras, sem nenhum tipo de indemnização; 3) as jornadas laborais costumam ser de 12 a 14 horas por dia. Com sorte, dispõem de um dia de descanso semanal ou uma semana de férias por ano; 4) exigem-se quotas de produção diária muito altas; os sindicatos estão muitas vezes proibidos; 5) as condições sanitárias e as medidas de segurança costumam ser muito pobres ou inexistentes.

Seria desejável que pudéssemos saber se a roupa que encontramos nas lojas foi fabricada segundo um código de conduta com critérios éticos [1], o que seria possível através de um selo “certificação social”. Na Europa já foram dados alguns passos nessa direcção, mas ainda não existe um sistema aceite internacionalmente e muitas vezes as intenções não passam do papel.

Este guia apresenta ainda uma secção com dados sobre algumas empresas analisadas no âmbito da Campanha Roupas Limpas espanhola. Contudo, depois de apresentada essa análise, é prudentemente dito que “Muitos consumidores solicitam uma lista de “empresas a evitar” e outra de “empresas a potenciar”, no entanto estas listas constituem uma simplificação perigosa. Ninguém faz “tudo bem” ou “tudo mal”. Além disso, graças justamente a actividades de pressão, as empresas podem ir corrigindo gradualmente as suas práticas. Temos que ter presente que cada pessoa tem os seus próprios princípios e por isso cada um de nós é que tem que valorizar as diferentes empresas segundo os nossos próprios critérios”

Inês Cardoso, Cores do Globo

[1] A Campanha Roupa Limpa elaborou em 1998 um código de conduta para a indústria da confecção e indumentária desportiva, apoiada por várias organizações sindicais internacionais. Ver o artigo “Roupa Limpa” deste Boletim.

 

 

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Ficha Técnica: Projecto “Territórios Sustentáveis: Consumo Responsável em Organizações privadas, públicas e 3º sector” | Coordenação do Projecto: CORES DO GLOBO - Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: ISU - Instituto de Solidariedade e Cooperação Universitária e QUERCUS - Associação Nacional de Conservação da Natureza | Co-financiamento: IPAD - Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento | Outros Apoios: CapEduc - Consultoria e Formação | Concepção gráfica: THINK BEFORE - Ideas for the World | Periodicidade: Mensal/2009

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