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EDIÇÃO Nº 05 |
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Muito mais do que uma mera indústria ou uma actividade económica que move milhões (financeiros e humanos), o turismo é inquestionavelmente um fenómeno social amplo e complexo. Antes de mais, importa ter em linha de conta, que o turismo não se resume a uma mera estadia num determinado lugar, não só porque envolve inúmeros actores cujos papéis sociais na engrenagem turística variam, mas também porque os diferentes impactos (económicos, sociais, culturais e ambientais) que gera amplificam a sua dimensão enquanto agente de mudança. As origens do turismo remontam a tempos históricos muito anteriores, mas é com o processo de industrialização e consequente democratização da viagem – esta já não como um luxo, mas como uma necessidade ou mesmo um direito ao nível laboral – que se assiste a uma nova fase do turismo internacional. A par desta democratização surgem inovações, nomeadamente ao nível dos transportes, que dão um novo impulso à mobilidade dos indivíduos. É então com o turismo de massas que assistimos a uma mudança de paradigma, crucial para entendermos as complexidades desta esfera do lazer. Esta forma de turismo suscita debates polémicos e posicionamentos variados. O turismo de massas é visto como um turismo predador. Mais do que isso, como um turismo alienante, que enquanto produto “empacotado” não faz mais do que criar consumos acríticos. Muitas vezes, as comunidades visitadas transformam-se em palcos de “encenações” turísticas com o único propósito de satisfazer as imagens estereótipadas que os turistas transportam nas suas bagagens. A exotização do Outro surge assim como uma das características mais insistentes na actividade turística, tantas vezes baseada na mercadorização cultural .Para além de deturpador cultural, ao turismo e aos turistas é imputada uma parcela apreciável de responsabilidade na degradação ambiental dos meios circundantes. Mas o turismo é também encarado como um factor estratégico de crescimento económico para muitos países. A ideia, proclamada pela OMT, de que o turismo poderia contribuir para eliminar o fosso entre países ricos e pobres, alimentou durante muito tempo esta convicção. Assim, ainda hoje, é hasteada a bandeira dos efeitos supostamente positivos do turismo: ao gerar emprego, cria riqueza e possibilita qualidade de vida, logo, despoleta o crescimento económico e o desenvolvimento social. Neste sentido, para muitos países do chamado “Terceiro Mundo” (particularmente em países de pequena dimensão e cujos recursos são escassos) o turismo apresenta-se como o motor de desenvolvimento por excelência. Mas a conclusão evidente não tardou em chegar: crescimento e desenvolvimento não são sinónimos. Muitas vezes, revela-se mesmo necessário abrandar o crescimento económico de forma a atingir o desenvolvimento pretendido. Contudo, persiste ainda uma tendência para uma certa confusão e sobreposição entre ambos os conceitos. Mas a questão que se coloca invariavelmente é: desenvolvimento para quem? Para a maioria destes países, a dependência do sector turístico é extremamente perversa. Por um lado, o fluxo de turistas é claramente assimétrico. Os turistas dos países ricos rumam aos países do Sul, numa sede insaciável pelo “diferente”. Contudo, esperam que as suas necessidades e vontades não sejam defraudadas, ou seja, a mudança a que se propõem não pressupõe uma mudança de hábitos. Quantos contentores de bens de segunda necessidade é preciso importar de forma a satisfazer as expectativas dos turistas durante as suas férias? Por outro lado, o controlo do turismo está muitas vezes sediado nos países detentores de capital, de onde emanam os turistas mas também os investimentos. Assim, o controlo da actividade turística é feito no exterior e vai desde a publicitação de um destino nas páginas dos guias turísticos, à infra-estruturação do território a visitar. Neste contexto, a que muitos chamam imperialista, a voz local é praticamente inexistente. Assim, os efeitos nefastos nas sociedades receptoras dão hoje o mote para o planeamento sustentável do turismo. A preocupação verificada não só com a fragilidade dos ecossistemas, mas também com a própria sustentabilidade do sector, parecem estar a contribuir para a emergência de novas abordagens turísticas e de novos tipos de turismo. Desta forma, ao turismo massificado contrapõem-se formas alternativas de turismo, desenhando-se recorrentemente uma distinção clara entre turismo de massas e turismo sustentável. Mas importa também problematizar algumas concepções armadilhadas que proliferem na ideologia da sustentabilidade. Antes de mais, há que distinguir entre o desenvolvimento do turismo sustentável (que visa consolidar o turismo) e o desenvolvimento sustentável do turismo (que encara o turismo como um meio para alcançar o desenvolvimento sustentável no geral). Uma das premissas que parece ser finalmente consensual, mas que nem por isso é facilmente operacionalizada, prende-se com o carácter multidimensional do conceito de sustentabilidade. Ou seja, é hoje ponto assente que a sustentabilidade deve ser económica, social e ambiental, mas esta articulação nem sempre é fácil de alcançar e revela lutas de interesses difíceis de conciliar. Muitos destes novos tipos de turismo não implicam automaticamente sustentabilidade. Apesar de auto-denominados “sustentáveis”, “verdes”, “eco”, muitas destas novas formas de turismo estão a massificar-se e tornam-se um produto turístico publicitado lado a lado com um pacote excursionista. Adicionalmente, muitos destes tipos de turismo, mesmo que circunscritos a limites numéricos e ecológicos, têm inevitavelmente consequências nos meios onde se implementam e podem gerar alterações não desejáveis, cujos efeitos cumulativos, a médio ou longo prazo, podem ameaçar aquilo que inicialmente se foi visitar com o intuito de preservar. É certo que o turismo acarreta transformações tão avassaladoras quanto irreversíveis nos contextos onde se instala. Mas é igualmente verdadeiro que estas transformações não têm que ser necessariamente más. A sustentabilidade e o desenvolvimento são conceitos aliciantes, quer para os turistas, quer para os operadores turísticos. Mas são as comunidades visitadas que deles devem beneficiar. Por isso, cabe-nos a nós, enquanto turistas, reflectir sobre os mecanismos silenciados que nos conduzem a determinados destinos e consumos turísticos. Maria do Carmo Lorena, Cores do Globo |
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