boletim Territórios Sustentáveis 04

EDIÇÃO Nº 04

A importância da coerência

É já um lugar comum dizer-se que “o futuro é das crianças”. Esta é, sem dúvida, uma das razões porque a aposta em termos de educação ambiental se tem centrado nas faixas etárias mais jovens. Contudo, esta linha de pensamento e trabalho pode facilmente induzir-nos em erro, se nos levar a pensar que os problemas ambientais poderão ser resolvidos no futuro, por todas estas crianças que estão agora a ser “formadas” numa cultura mais respeitadora do ambiente. A acção é urgente, particularmente se o legado que queremos deixar aos nossos filhos inclui um Planeta em equilíbrio que lhes permita um futuro auspicioso. No mês em que se comemora o dia da criança, propomos uma reflexão sobre o papel de cada um na construção de um melhor “futuro comum”.

As questões ambientais em Portugal surgiram há poucas décadas. Mesmo após 1974, grande parte das preocupações não se centrava na preservação do ambiente. Aliás, os anos 80 foram pródigos em “atentados ambientais”, muitos deles associados à construção desordenada e clandestina, ao funcionamento desregrado de muitas indústrias, ao estímulo ao consumo sem que existissem infra-estruturas básicas para lidar com as suas “externalidades”, como por exemplo no caso do tratamento de resíduos.

Durante muito tempo “cuidar do ambiente” foi encarado por muitos como um entrave ao desenvolvimento e um incentivo à promoção do desemprego. Embora não possamos afirmar que estamos hoje livres deste tipo de posturas, é um facto que o argumento “já não colhe” como antigamente. Para além da própria evolução cultural (para muitos feita à custa de obrigações legislativas), a experiência de termos que lidar com os problemas ambientais demonstrou cabalmente que a prevenção é melhor do que a remediação ou minimização.

O papel que as crianças têm desempenhado neste processo de evolução cultural, nomeadamente através da sensibilização das gerações mais velhas, é reconhecido por muitos. Contudo, é fundamental que as crianças possam ter em casa, e não apenas na escola, um estímulo a uma conduta de respeito pelo ambiente. Caso contrário, as contradições existentes entre o que “se ouve” na escola e o que se vê praticado em casa podem ter um efeito dissuasor da própria criança na assumpção desses comportamentos. Não nos devemos esquecer que a estrutura de poder nas nossas casas não está igualmente distribuída por todos os seus membros e, em muitos contextos relevantes para a protecção ambiental, as crianças não são, de todo, o elemento determinante da escolha final da família.

Também é importante frisar a importância da contradição constante que existe entre a mensagem veiculada pela escola e aquela que é veiculada por estruturas bem mais poderosas em termos dos recursos disponíveis, como é o caso do marketing e de publicidade. Através destas ferramentas há um apelo constante ao consumo assente em mensagens apelativas e que procuram associar a imagem das próprias crianças e jovens à compra ou consumo desta ou daquela marca, deste ou daquele produto, muitos deles totalmente insustentáveis não apenas em termos ambientais, mas também para o desenvolvimento global da criança.

Assim, a coerência de mensagens torna-se ainda mais relevante, uma vez que, são múltiplas as influências a que as crianças estão sujeitas. A mensagem fundamental é, assim, a da necessidade de um trabalho conjunto. Não é expectável que as crianças consigam, (quase) contra tudo e contra todos, manter a sua postura de maior sensibilidade para os problemas ambientais, se ao nível do próprio funcionamento das escolas, das autoridades locais (autarquias, juntas de freguesia), dos espaços de comércio e da própria família persistirem mensagens contraditórias.

Só com cidadãos informados, atentos e interventivos será possível ter esperança que o Planeta que iremos passar aos nossos filhos está, pelo menos, tão saudável quanto estava quando o recebemos. E se é bem verdade que muito se tem melhorado em várias áreas, também é um facto que, por outro lado, temos aumentado a nossa pegada ecológica sem parar. Tal resultado indica-nos que o tempo para trabalhar os temas da reciclagem já passou. É hoje fundamental trabalhar a montante e preparar as nossas crianças para um presente e para um futuro onde a “pedra de toque” é/será a prevenção. E é fundamental que esta mudança na mensagem seja acompanhada pelo nosso esforço na sua concretização quotidiana.

Susana Fonseca, Quercus

 

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Ficha Técnica: Projecto “Territórios Sustentáveis: Consumo Responsável em Organizações privadas, públicas e 3º sector” | Coordenação do Projecto: CORES DO GLOBO - Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: ISU - Instituto de Solidariedade e Cooperação Universitária e QUERCUS - Associação Nacional de Conservação da Natureza | Co-financiamento: IPAD - Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento | Outros Apoios: CapEduc - Consultoria e Formação | Concepção gráfica: THINK BEFORE - Ideas for the World | Periodicidade: Mensal/2009

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