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EDIÇÃO Nº 03 |
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“As pessoas tendem a vê-lo [o comércio justo] como caridade, mas não é, é uma questão de justiça. Temos de nos libertar deste pensamento de cariz caritativo. Eu vejo o comércio justo a alcançar dois grandes objectivos: por um lado, está a ajudar pessoas de forma imediata, modificando as suas vidas; por outro, há o plano mais vasto, do comércio justo como uma ferramenta de protesto, uma forma de cada pessoa registar o seu voto. Só que agora, não estamos a boicotar algo, estamos a apoiar algo de positivo”. [1] Quando nos deslocamos a uma loja, em que nos baseamos para escolher um produto? Bom, apreciamos aspectos estéticos, o preço, a marca, a sua qualidade aparente... Enfim, quantos de nós pensamos sobre a sua origem, as condições sociais, económicas e ambientais em que foi produzido, as etapas da sua viagem até à prateleira em que está exposto? A resposta é fácil, muito poucos e, pouca é a informação que nos é transmitida pela empresa que comercializa o produto, como se este surgisse automaticamente nas nossas prateleiras, um elemento sem passado, pronto a satisfazer os nossos desejos enquanto consumidores: a maior diversidade, quantidade e inovação, ao custo mais baixo, sustentando a nossa maior qualidade de vida, no plano material. Mas quem suporta este nosso conforto? A competição desenfreada no mercado ultra liberal onde tudo vale, determina o maior investimento das grandes empresas em marketing e a procura da produção mais barata, em grandes quantidades, de menor qualidade, com recurso a mecanismos perniciosos para o ambiente, com a mão de obra mais barata. Esta é a história que não nos é contada....Enredados nas malhas da pobreza, os produtores e trabalhadores do Sul do mundo, sobrevivem (ou não) no limiar da pobreza, presos no ciclo vicioso que é este mercado que não conhece valores. É neste contexto que o comércio justo se torna uma necessidade, enquanto alternativa ao modelo de comércio internacional que vigora e enquanto movimento social. Compreende-se pois que o que caracteriza o comércio justo são as mesmas condições que o comércio internacional liberal de uma forma geral recusa a estes produtores e trabalhadores: (a) a recuperação do valor da produção na cadeia de valor de um produto e a compra directa ao produtor; (b) o pagamento de um preço justo pelo seu trabalho (que sustente os custos de uma produção ambientalmente mais sustentável e permita uma vida digna ao produtor/trabalhador e sua família); (c) a focalização no desenvolvimento e na assistência técnica, através da atribuição de um prémio social, por exemplo (utilizado no desenvolvimento da comunidade, apoiando desta forma não só o produtor/trabalhador mas a própria comunidade em que está inserido); (d) o estabelecimento de uma relação de parceria com o produtor, estável e transparente, baseada nos princípios da confiança mútua e da cooperação; (e) a disponibilização de crédito quanto solicitado; (f) a disponibilização de informação sobre o mercado; (g) a organização dos produtores e trabalhadores de forma democrática, seja por meio de cooperativas ou da constituição de sindicatos, proporcionando que todos tenham voz; (h) a realização de uma produção ambientalmente sustentável e (i) a eliminação de situações de discriminação e/ou de exploração, como são exemplos a salvaguarda dos direitos das mulheres e a eliminação do trabalho infantil. Os principais actores deste movimento são os produtores, as organizações que trabalham com estes e importam os seus produtos, as lojas do mundo e retalhistas e, os consumidores. Entre estes actores, constituíram-se federações com escala mundial, que trabalham com o intuito de promover a maior implementação deste modelo genericamente, ainda que, com interpretações distintas do que deverá ser a sua evolução. A mais representativa é a World Fair Trade Organization. Actualmente, o Comércio Justo apoia mais de 1 milhão e meio de produtores e suas famílias mas 1,1 biliões de pessoas sobrevive com menos de 1 dólar por dia. Cabe a cada um de nós, na sua decisão de comprar um produto, votar por um mundo mais justo e solidário. Ludmila Carapinha, Cores do Globo [1] Citação de Bruce Crowther, Coordenador da Campanha das Cidades Justas, da Fair Trade Foundation, 2003 (Nicholls, A. & Opal, C. (2005). Fair Trade – Market-Driven Ethical Consumption. London: Sage, p. 4) Fontes: Mais informação em: |
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