boletim Territórios Sustentáveis 02

EDIÇÃO Nº 01

Depois do hiperconsumo, o quê?

Mais olhos que barriga (ou mais consumo que a Terra pode dar)

A sociedade de consumo fomentou consumidores diligentes e cidadãos negligentes. O hiperconsumo (não só o consumo excessivo mas as excessivas apresentações dos bens de consumo) engendrou o hiperindividualismo que nos tornou presas da compra a qualquer momento e em qualquer atmosfera festiva do nosso quotidiano, graças ao isco das pechinchas, surpresas, descontos, promoções e reduções. Queremos tudo a qualquer momento, lá está o crédito ao consumo para facilitar o nosso sonho. Mesmo neste novo ciclo de incerteza, com mais elevadas taxas de desemprego e novas obrigações familiares. O consumo tornou-se exactamente nisto: responder em cima da hora, à necessidade e ao desejo.

A cidadania é outra coisa: é a colaboração para o bem comum, é o cuidado com os outros, é a preocupação com o sítio em que vivemos, é o princípio da tolerância, a preservação dos patrimónios. É um valor estrutural, está dependente da força de vínculos e das parcerias morais.

O consumo é estético, a cidadania é ética.

Andamos, há mais de uma década, a falar em consumo responsável orientado para o desenvolvimento sustentado. Fala-se em comprar e consumir de um modo diferente, gera-se mesmo a ilusão de que o nosso poder de compra poderá ser eterno, a questão elementar será escolher bens de consumo ambientalmente menos agressivos e socialmente mais justos. Como é esperável, a ilusão não leva a ponto nenhum, o fundamental é reconciliar o consumidor com o cidadão, desenvolvermos uma mentalidade que torne a adesão possível a modos de produção e consumo sustentáveis. Para que tal aconteça, o Estado, as autarquias, os investidores, os investigadores e os cidadãos terão que acordar num consumo e numa sustentabilidade feitos de política fiscal (incentivos e punições), que definir claramente o que é sustentável e insustentável, promover valores da autarcia sem colidir com os princípios da globalização positiva (isto é, aquela globalização que não esmaga os indefesos nem agrava os problemas sociais, ambientais, culturais ou económicos)

O consumo como factor de inovação cultural

Como a tensão entre consumo e cidadania é indisfarçável, como há conflitos na agricultura local, biológica e prudente em contraste com a massificada e que percorre todos os continentes, e o mesmo se poderá dizer nos conflitos entre o transporte público e colectivo, entre os transportes comerciais de longo curso gravosos para o aquecimento da Terra, entre o investimento produtivo e multiplicador de empregos e a especulação puramente parasitária, cabe à sociedade definir o que é o consumo e em que é que ele se distingue da consumição. Se o consumidor quer avidamente tudo desde os preços mais baixos, a acessibilidade ainda mais pronta e rápida e a multiplicação das apresentações dos bens, é impensável que possa agir em consciência numa tomada de posição individual a favor da sustentabilidade, o que lhe interessa é consumir mais, a qualquer preço, e sem qualquer sentido da solidariedade. Comprar diferentemente, para ele, é um slogan, um expediente, uma tranquilização, num mundo em que é urgente só produzir o que seja reciclável, recuperável, reutilizável. Esse consumidor não quer ser prejudicado naquilo que se convencionou chamar “liberdade de compra”: se quer comprar gel de duche, ambientalmente mais danoso que o sabão, deve fazê-lo, sem constrangimentos nenhuns. Tem liberdade de se endividar, de comprar produtos descartáveis, viaturas 4x4, pôr à mesa, sem contestação, alimentos provenientes das regiões mais longínquas. Acha que o mundo vai mal mas não autoriza que se discuta a forma como ele consome.

Começar pela educação, definirem-se os contratos do bem comum

Na hiperescolha consumimos, por definição, cada vez mais. As mudanças registadas na composição do nosso regime alimentar também têm a ver com a maior quantidade de alimentos que consumimos. Queremos mais barato, isto é, queremos mais subsídios à agricultura, mas fertilizantes, mais massificação. Os nossos modos alimentares agravaram os impactes ambientais, têm graves consequências sociais e económicas. Trata-se de um regime alimentar altamente proteico, com comida cada vez mais exótica, cada vez água mais bem engarrafada, mais resíduos, mais sobreconsumo de recursos da pesca, etc. Ora, é inteiramente impossível concretizarmos uma política de consumo social e ambientalmente responsável sem promover obrigações do Estado, a adesão consciente dos cidadãos, a sua sensibilização para o pleno rendimento da utilização dos bens.

Consumo responsável e desenvolvimento sustentável precisam de políticas, metas, imperativos, interdições, prémios à concepção de produtos onde haja maior rendimento da matéria-prima, investimentos que hierarquizem a dignidade do trabalhador, onde se coordenem as velocidades (a aceleração do tempo é cada vez mais cara, paga-se em dinheiro, em atentado ambiental e mais injustiça).

As políticas devem premiar tecnologias e bens ambiental e socialmente mais responsáveis, os consumidores devem pagar mais caro o insustentável, as empresas que se mobilizam para produtos insustentáveis serem mais tributadas. E não vale a pena falar em responsabilidade social no quadro do voluntarismo quando o que está em causa são energias alternativas, comportamentos respeitadores do meio envolvente e da condição dos trabalhadores, o cuidar do outro (que pode estar nos países do Sul, ou ser um trabalhador escravo de produtos de prestígio vendidos no mundo ocidental).

Sendo a cidadania ética, é indispensável valorizar todas as práticas do comércio justo que convidem o consumidor a aderir à globalização positiva, actuando, por via das compras, na melhoria da situação dos produtores, seja nos países do Sul seja nos procedimentos de fabrico irresponsável.

Enfim, compete ao Estado impulsionar informação gratuita sobre todos os bens social e ambientalmente menos agressivos, garantindo que se possam fazer escolhas responsáveis, indutoras de um consumo consciente. Enquanto tal não acontecer, viveremos de boas intenções mas sem a garantia de obras e resultados duradouros. Isto significará que a causa social mais importante do desenvolvimento sustentável continuará adiada.

Beja Santos, Direcção Geral do Consumidor

 

 

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Ficha Técnica: Projecto “Territórios Sustentáveis: Consumo Responsável em Organizações privadas, públicas e 3º sector” | Coordenação do Projecto: CORES DO GLOBO - Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: ISU - Instituto de Solidariedade e Cooperação Universitária e QUERCUS - Associação Nacional de Conservação da Natureza | Co-financiamento: IPAD - Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento | Outros Apoios: CapEduc - Consultoria e Formação | Concepção gráfica: THINK BEFORE - Ideas for the World | Periodicidade: Mensal/2009

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