boletim Territórios Sustentáveis 02

EDIÇÃO Nº 02

As Origens do Consumo Ético

Boicotes contra o uso de escravos em grandes fazendas de produção de açúcar ou mesmo campanhas contra produtos manufacturados em países pouco conscientes dos direitos dos trabalhadores, foram desde sempre episódios descritos na História mundial, e constituíram os primeiros actos de consciência na procura de um consumo mais ético e responsável. Contudo, foi nos finais dos anos oitenta, que se verificou uma grande revolução do poder político dos consumidores, que optaram por começar a manifestar o seu interesse num consumo mais ético. Nas livrarias e bibliotecas, os guias éticos para o consumo começaram a ganhar espaço de destaque, tornando-se num dos tipos de leitura mais procurada. Individualmente, as pessoas começaram a manifestar a sua posição em acções dirigidas a causas ambientais e sociais. O poder do consumidor assumiu uma posição muito forte. As empresas viram os seus produtos serem boicotados pelo consumidor, conduzindo-as a adoptar novas técnicas de produção e a procurar novos tipos de matérias-primas. [1] Actualmente existem várias publicações que abordam a temática do consumo, tal como o “Guia do Consumo Crítico”, produzido em Itália, que alerta o consumidor para uma compra consciente e responsável. [2]

Ao longo da história são já inúmeros e incontáveis, os episódios vividos no âmbito de uma maior preocupação mundial por aspectos relacionados com um consumo ético, sendo que a importância do recurso ao boicote se assume como uma forma básica de consumo ético. Um dos casos típicos de mudança ocorreu em muitas empresas de cosméticos, que viram os seus produtos serem “banidos” socialmente do mercado, devido aos testes em animais que efectuavam. Um boicote com grande impacto foi o que se verificou em várias companhias aéreas, que assumindo uma postura ética, pararam o transporte de animais, cujo destino seria a indústria da investigação. Estas companhias aéreas, devido ao transporte frequente destes animais, acabaram por ser rotuladas de “cargo cruelty”, por justamente optarem pelo dinheiro e não por uma conduta ética. A maior parte das companhias aéreas mudaram a sua posição, embora outras tenham optado por continuar a preferir o dinheiro em vez de uma consciência tranquila.

Também a empresa privada “De Beers”, responsável por uma enorme actividade mineira na África do Sul, foi uma das companhias boicotadas devido ao seu intenso programa de exploração de diamantes. O boicote foi impulsionado pela Survival International (Movimento criado em defesa das populações tribais), que acusou a empresa de ser responsável pela devastação da população indígena e pela destruição da reserva ecológica da região.

A partir dos anos noventa, muitas empresas começaram a rotular os seus produtos como éticos, e implementaram estratégias para desenvolver internamente mecanismos de responsabilidade social. Mas é preciso que as pessoas sejam informadas sobre o que está subjacente a cada produto em termos éticos, sociais e ambientais e adquiram cada vez mais responsabilidade no consumo que realizam e que, consigam olhar para além do preço e entender que o produto que compram tem muito mais para oferecer do que o que podemos retirar deles unicamente a nível material. [1]

Curiosidade: O termo “boicote” foi utilizado pela primeira vez em 1880, e deve o seu nome a Charles Cunningham Boycott, um latifundiário da Irlanda. O episódio histórico retrata uma rebelia dos camponeses locais, que passando por dificuldades monetárias, ignoraram as cobranças de renda do proprietário das terras. Charles Boycott revolta-se contra esta situação e inicia as acções de despejo dos camponeses, sendo depois ostracizado pela população local. [3]

Patrícia Ventura, Cores do Globo

[1] Ethical Consumer: A beginner’s Guide em http://www.ethicalconsumer.org/

[2] Guida al consumo critico em http://www.ilgiardinodeilibri.it/libri/__guida_al_consumo_critico.php

[3] Encyclopedia.com em http://www.encyclopedia.com/doc/1O48-BoycottCharlesCunningham

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