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Produto: Cultivo das Nozes
do Brasil O que são as nozes do Brasil e como se produzem? O castanheiro brasileiro (Bertholletia excelsa) pertence a uma grande família de 325 árvores da região da Amazónia. Cresce assim na zona amazónica. Dentro da território Boliviano a maior concentração de castanheiros brasileiros situa-se no departamento de Pando. A maioria das nozes produzidas são consumidas pelo mercado nacional, mas uma delas é conhecida internacionalmente: a noz do Brasil. O castanho brasileiro cresce num clima tropical com temperaturas médias de 27ºC, pouca oscilação térmica entre cada mês, uma temperatura mínima de 8 a 9ºC e uma máxima de 30 a 33ºC, com precipitações entre 1600 e 1800 mm por ano. Os meses mais secos são de Julho a Setembro e os mais chuvosos de Dezembro a Março. Trata-se de uma árvore que pode alcançar os 50 metros de altura e cuja madeira é muito boa apesar de pouco utilizada face aos rendimentos obtidos com a noz. Uma árvore adulta produz entre 60 a 70 Kg de nozes por ano. As nozes ficam maduras entre Setembro e Janeiro, caindo ao solo onde prontamente são recolhidas. Depois da apanha, as nozes do Brasil são submetidas ao vapor de água a alta pressão durante 5 minutos para se poder retirar a casca das nozes. Na Bolívia, esta separação é preferencialmente realizada com as mãos dadas as perdas e alterações de cor e sabor ocasionadas pelo processo mecânico. São as mulheres "peladoras" que geralmente estão encarregadas de efectuar esta separação. Uma trabalhadora experiente consegue separar cerca de 50 Kg por dia e um centro de média dimensão comporta entre 80 a 120 mulheres "peladoras". Depois de retirada a casca, as nozes continuam a
ter uma elevada percentagem de água (humidade) com valores entre
15 a 18%. Estes valores têm que descer até atingirem as
especificações dos mercados internacionais (5% na Europa
e 2% nos EUA). Para tal, as nozes para exportação
são mantidas em fornos especiais durante 30 horas a
40-60ºC. O combustível utilizado nestes fornos é
normalmente uma mistura de lenha com azeite proveniente das nozes
defeituosas. As mulheres são também encarregadas dessa
selecção. Ao mesmo tempo que se empacotam as nozes para
exportação é-lhes adicionado geralmente um
insecticida natural para uma melhor conservação. Uma vez
empacotadas as nozes são transportadas de barco até
Rurenabaque e por camião até La Paz e Arica (Chile).
Daqui as nozes viajam na companhia do cacau da cooperativa El Ceibo
(outro projecto boliviano ligado ao Comércio Justo e que produz
cacau para os chocolates Mascao). Com efeito a El Ceibo e a Campesino
partilham a mesma companhia exportadora, mantendo entre ambos
óptimas relações que lhes permite uma constante
ajuda mútua.
Estes apanhadores "castañeros" formam um colectivo que não desfruta de nenhum tipo de protecção legal, já que na Bolívia, os trabalhadores agrícolas não estão sob a alçada da Lei Geral do Trabalho que garante alguns dos direitos básicos (segurança social, seguro, etc.). Os "castañeros" vivem nas "barracas", centros de apanha que carecem de infra-estruturas e recebem o seu salário em produtos de consumo, com um saldo no final da temporada de apanha em dinheiro. No entanto, em muitos casos, este "acordo" dá origem a muitos abusos e o dono da "barraca" cobra preços exorbitantes pelas mercadorias entregues, obrigando os "castañeros" a continuara a trabalhar de graça para pagar as dívidas contraídas. Por outro lado, existem entre 5000 a 7000
emigrantes brasileiros, a maioria de forma ilegal, que vem trabalhar
nesta região. A posição dos "castañeros"
é ainda agravada pelo sistema de preços injustos
já que ficam com somente 15% do preço comercial e a sua
influência na determinação dos preços
é quase nula. No contexto global onde a agricultura boliviana emprega cerca de 42% da população activa gerando somente um quinto do Produto Interno Bruto (PIB), onde o cultivo da cocaína representa 30% da produção mundial e onde os trabalhadores agrícolas são expostos aos mais variados abusos por parte dos detentores das terras, foi-se desenvolvendo um pequeno sector de pequenos agricultores que recolhem nozes do Brasil nas suas próprias terras. Tal desenvolvimento está intimamente ligado com a descida dos preços do cauchu natural no mercado internacional. De facto, os trabalhadores que viviam todo o ano nas "barracas" dedicavam-se depois da época das nozes do Brasil à apanha do cauchu. Este sector era totalmente monopolizado pela empresa Casa Suarez. Com o colapso dos preços do cauchu a produção quase terminou e muitos destes trabalhadores passaram a montar as suas próprias pequenas explorações agrícolas. Em 1990 cerca de 50% da produção de nozes do Brasil era proveniente de pequenas explorações independentes. Outros juntaram-se a comunidades agrícolas já existentes ou formaram novas comunidades. Esta situação obrigou esta região produtora de nozes a contrair pesadas dívidas financeiras no Brasil e assim tanto o mercado do cauchu como das nozes era totalmente dependente do Brasil. Em 1979, a região esteve à beira do colapso social e económico em consequência da desvalorização contínua do cruzado (moeda brasileira) e da especulação em torno dela. Esta situação crítica levou a que os membros do sindicato "Federación Sindical Unica de Trabajadores" de Vaca Diez exigissem ao governo o uso de fundos comerciais para as nozes do Brasil fixando um preço a pagar pela Empresa Nacional de Castaña (ENACA). As mobilizações dos agricultores e empregados do sector (cortes de estrada, etc.) conseguiram trazer um acordo final segundo o qual 80% dos fundos comerciais da ENACA eram destinados à compra da apanha dos empregados e os 20% restantes à compra directa aos agricultores. O governo exigiu então a criação duma instituição fiável através da qual seriam efectuados os pagamentos referidos. Da iniciativa dos agricultores, com a ajuda
imprescindível e valiosa do Vicariato Apostólico de Pando
e da ONG EMEIR (uma pequena organização que trabalha para
garantir a sobrevivência da população rural do
Norte da Bolívia), nasceu então a cooperativa CAMPESINO
L.da. Esta cooperativa não pretendia somente cumprir os
requisitos exigidos pelo governo, mas também oferecer uma
alternativa à exploração dos intermediários
deste sector. A CAMPESINO iniciou oficialmente funções em
Janeiro de 1980. Em 1984, abriu uma divisão no departamento de
El Porvenir e em 1990 outra em Batrajas (Litoral Sul) onde as terras da
cooperativa alcançam os 50.000 hectares. O castanheiro brasileiro faz parte e depende
completamente de um ecossistema tropical complexo. A
polinização do castanheiro é levada a cabo por uma
série de abelhas que não poderiam sobreviver sem a selva
tropical. Com efeito, o macho utiliza certas substâncias
químicas de várias espécies de plantas da selva
para cobrir as suas asas, dando-lhes um brilho azulado que atrai a
fêmea e possibilita a reprodução. Sem as variadas
espécies que compõem a selva tropical, este insecto
não se pode reproduzir e o castanheiro brasileiro não
será polinizado não havendo depois nozes. Esta estreita e complexa relação entre espécies do reino vegetal e animal ilustra bem a fragilidade da selva tropical. Esta profunda relação foi claramente confirmada quando se tentou a monocultura de castanheiros brasileiros ou quando se tentou a introdução de castanheiros de outros países (Malásia, Indonésia, etc.), experiências que acabaram em rotundo fracasso. Portanto, a protecção da selva tropical é condição sine qua non para o desenvolvimento da produção de nozes do Brasil. A maior ameaça actual para o castanheiro
brasileiro vem da prática ampla de "slash and burn" ("cortar e
queimar"), que consiste na desflorestação para cultivo,
até que em poucos anos (aproximadamente 5) a terra torna-se
improdutiva, obrigando os cultivadores a continuar a
desflorestação. Os períodos durante os quais se
deixa repousar a terra para que recupere (entre 5 e 15 anos) não
permitem ao castanheiro brasileiro voltar a crescer já que
necessita pelo menos de 20 anos. Com esta prática o castanho
brasileiro quase chegou a extinguir-se. Os membros da CAMPESINO estão
disseminados em muitas comunidades bolivianas, acolhendo directamente
462 famílias embora perto de 900 beneficiem de alguma forma da
actuação desta cooperativa e estima-se que a breve prazo
a influência da CAMPESINO alcance as 1900 famílias. Se
estas perspectivas de crescimento e fortalecimento forem
alcançadas a CAMPESINO poderá iniciar a trabalhar com
outros produtos: café, cacau, etc.. Os grupos económicos (existem 7 grupos económicos importantes) são formados por membros e não membros da CAMPESINO e trabalham de uma forma autónoma elegendo livremente uma forma local de organização. A sua obrigação é, no entanto, de estar vinculado com o sindicato da comunidade. A cooperativa fomenta a ideia de que o comité executivo do sindicato da comunidade é o órgão que cuida dos grupos económicos. O conselho e o Comité de Supervisão reúne todos os meses, participando também os delegados dos grupos e, uma vez por ano, elege-se metade do Conselho e do Comité de Supervisão, mantendo assim a continuidade das actividades e objectivos. A participação dos membros
é assegurada em três níveis: A CAMPESINO fixa o preço de compra das
nozes aos grupos. Com base neste preço, o grupo fixa o
preço interno de compra aos seus membros. Ao mesmo tempo, a
cooperativa define quotas para as mercadorias dos grupos vendidas a
preço fixo nas lojas comunitárias. Os benefícios para a CAMPESINO
resultantes da comercialização das nozes do Brasil
são divididos da seguinte forma: Por outro lado, a cooperativa comercializa
outros produtos da terra no mercado local e trabalha para a
diversificação dos produtos agrícolas (cacau,
bananas, etc.). No entanto, a paralisação do mercado do
cauchu continua a deixar durante alguns meses (desde Abril até
Outubro) sem actividade muitos agricultores. Para colmatar este
problema, e dentro do programa de diversificação,
trabalha-se para o desenvolvimento da produção, entre
outros produtos, de "alubias". A EMEIR Equipos Móviles de Educación Integral Rural) vem desempenhando um papel fundamental na formação e consolidação da CAMPESINO. De origem católica, os seus objectivos centram-se na erradicação do isolamento, dependência e exploração da população rural. Entre outros aspectos, destaca-se, desde 1988, a implantação de produções agrícolas alternativas para lutar contra as práticas do "Slash and burn". Cultivos biológicos de produtos variados, assistência técnica e comercial, em esquecer a assistência para programas educativos, fomento da integração das mulheres, assessoria sindical, centros experimentais em parceria com a CAMPESINO são alguns dos elementos fundamentais desta dinâmica colaboração. A estreita relação da EMEIR com a
ONG belga para o desenvolvimento "Fonds voor Ontwikkelingssamenwerking"
permite a compra de algumas das colheitas e a melhoria dos centros
experimentais. Desde 1986, ano em que a CAMPESINO efectuou a
sua primeira exportação para o Perú, que esta
cooperativa teve de enfrentar dificuldades importantes no
instável mercado internacional. Estas dificuldades fizeram com
que contactassem, através da EFTA (European Fair Trade
Association), a organização OXFAM-Wereldwinkels entre
outras. As suas exportações de nozes do Brasil
através da OXFAM permitiram à CAMPESINO pagar as
dívidas que tinha contraído e patrocinar o seu
próprio desenvolvimento. |
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