#11 - 2007

 
 



boletim CJ (nºs anteriores)

boletim CJ #11 - 2006

O Comércio Justo face aos novos desafios comerciais

Este foi o tema do debate realizado no terceiro e último dia do Fórum de CJ, dia 13 de Maio, que contou com a participação de 2 convidados de organizações europeias: o Andres Arechaga da espanhola Espanica e o Leone de Vita da italiana Ctm Altromercato. Stéphane Laurent, do CIDAC, abriu o debate lembrando que o tema dos modelos de comercialização é actualmente o mais polémico no CJ, também porque serve de base à discussão sobre a identidade e a missão do CJ.

De facto, a nível europeu os debates dentro do CJ têm-se intensificado nos últimos anos. Como resultado, e simplificando, assistimos na Europa a uma forte polarização do movimento. Num dos pólos, há os actores que consideram a venda na grande distribuição como indispensável para alcançar maiores volumes de venda e assim apoiar mais eficazmente os produtores. No outro pólo, há os actores que receiam que esta forte proximidade aos actores convencionais do comércio ponha em causa a identidade do CJ.

Os 2 convidados representam estas duas posições distintas. A CTM Altromercato é uma das maiores importadores de CJ a nível europeu e internacional e já tem vários anos de trabalho com a grande distribuição. A Espanica é uma pequena importadora, detida em parte por produtores da Nicarágua, que faz parte da rede “Espaço por um Comércio Justo”, que debate a problemática da identidade do movimento.

Leone de Vita defende que os volumes de venda, quando começam a ter relevância, são de facto importantes, porque podem causar algum dano ao comércio convencional e pressioná-lo a mudar as suas formas de actuação – contaminação positiva. Embora seja essencial distinguir a verdadeira responsabilidade social das empresas de campanhas de marketing sem qualquer impacto na realidade dos produtores. Nesta linha, outra distinção muito clara para Leone é entre organizações de CJ e organizações que vendem CJ.

Outro argumento a favor da grande distribuição, é a venda nas lojas de comércio justo/Lojas do Mundo (LM) não ser incompatível com a venda nos hipermercados. Segundo Leone o tipo de cliente é distinto: o cliente de uma LM está à procura do mundo, de uma história; enquanto que o cliente de um hipermercado está à procura de um produto com determinadas características e de comodidade. O objectivo é portanto chegar a esse tipo de cliente, que nunca foi a uma LM mas que mostra alguma preocupação com critérios sociais e ambientais - que através dessa compra tem um primeiro contacto com o CJ, aumentando assim o número de pessoas que conhecem o movimento.

Leone acrescenta o argumento do escoamento da produção dos produtores, já que a maioria tem uma capacidade de produção muito superior àquela que vende através do CJ. De facto, os produtores já vendem uma parte significativa da sua produção no mercado convencional. Como último argumento, Leone refere a necessidade das organizações de CJ serem economicamente sustentáveis, condição que vê como basilar na vertente comercial do CJ e essencial à credibilidade do movimento se quer de facto ser visto como uma alternativa ao comércio convencional. Mais ainda porque, ao falarmos de justiça, só a viabilidade económica permite a justa remuneração dos colaboradores.

Claramente contra a venda de produtos na grande distribuição está a Espanica. O Andres Arechaga começa por salientar que se fala muito dos consumidores mas que a preocupação da Espanica é com os produtores. Como argumentos, Andres refere em primeiro lugar que um supermercado que ofereça produtos de CJ, suponhamos 1% da sua oferta, tem no mesmo espaço 99% de produtos que são comprados aos produtores a preços injustos. Depois, o facto de confiar num selo de garantia pode desmobilizar o consumidor para as lutas políticas e não o leva a reflectir sobre as condições comerciais. Em terceiro lugar, a Espanica vê o CJ como um movimento alternativo, logo, que deve procurar de facto alternativas comerciais às dominantes, apostando noutras formas de chegar aos consumidores.

Para Andres a grande questão é não se poder mudar uma parte do CJ sem se mudar a outra – se queremos mudar a produção, temos que mudar o consumo. O consumo nas grandes superfícies é um acto individual, não informado, na maioria das vezes não reflectido e passivo. O CJ implica que o consumidor mude, que faça um consumo colectivo, informado, reflectido e activo. Não basta esperar que quem vende nos faculte informação, há que exigir que nos seja dada toda a informação de que necessitamos. O CJ deve provocar o consumidor a que nos faça perguntas, que participe. Num extremo, “não me deve caber a mim afirmar que o meu produto é de CJ, mas cabe sim ao consumidor validar se o meu produto é de CJ ou não. Este é um longo e difícil caminho, mas muito mais interessante.”

Deste debate tão participado podemos retirar duas conclusões. Por um lado, a questão dos modelos de comercialização é bem mais complexa do que dizer sim ou não à grande distribuição, tocando vários aspectos que podem ser analisados de diferentes perspectivas. Por outro lado, é essencial continuar e reforçar este tipo de discussões e reflexões no seio do CJ, envolvendo tanto quanto possível todos os seus actores.

Sendo esta dicotomização útil para um debate, é resultado da existência hoje de diversos "modelos de comercialização", sendo essa heterogeneidade um desafio para a coesão do movimento, mas também uma das razões do seu desenvolvimento.

apoio:

Ficha técnica: Coordenação de projecto: Cores do Globo – Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Reviravolta - Associação para a Promoção do Comércio Justo | Apoios: IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento | Concepção Gráfica: Evatrai craft design | Adaptação WWW: Cores do Globo