As questões de género prendem-se com muito mais do que apenas a economia. A sua discussão envolve, entre outros aspectos, identidade, género, sexualidade e cultura. No entanto assistimos hoje em dia a um fenómeno contrário ao esperado: a “feminização” da pobreza cresce a nível mundial e as mulheres são aquelas que se encontram em situações mais precárias, constituindo 70% dos 1,3 biliões de pessoas que vivem com menos de €1,5 por dia. Curiosamente, são as mulheres quem cultiva 70% a 90% dos alimentos produzidos no mundo.
As mulheres recebem salários mais baixos que os homens – cenário agravado nos países do sul mas também comum nos países industrializados. Trabalham cerca de 60 a 90 horas por semana, a maioria destas, em trabalho não remunerado. E não é por se encontrarem em grande maioria nas posições mais baixas das hierarquias, porque verificamos que se nota a mesma diferença de salários em cargos equiparáveis – uma remuneração 30% a 40% menor.
Na agricultura, por exemplo, o trabalho feminino é muitas vezes considerado menos importante e, mesmo quando a legislação do país não o permite, muitas trabalhadoras recebem salários mais baixos em cargos idênticos. Na manufactura, muitas empresas aproveitam-se da menor probabilidade, por parte das mulheres, de se juntarem a algum tipo de sindicato ou de protestar de alguma forma pelos seus direitos laborais. Muitas empresas vêm aqui uma oportunidade de maximizar os lucros, pelo pagamento de salários extremamente baixos contra longas horas de trabalho diárias – exigindo ainda uma flexibilidade de trabalho impossível para as mulheres que são também mães, membros da família e da comunidade.
É preciso não esquecer que os direitos das mulheres estão fortemente ligados aos direitos da criança. Ao garantir a independência e auto-sustentabilidade às mulheres e ao dar acesso, a ambos os sexos, à educação, está-se a dar um importante passo para o fim do trabalho infantil. O contrário é infelizmente uma dura realidade.
Trocas justas entre masculino e feminino?
Sendo um dos princípios fundamentais do comércio justo (CJ) o respeito pelos direitos dos produtores e das produtoras, garante-se uma posição clara em relação às mulheres - um esforço para garantir os seus direitos, diminuir a discriminação sexual e económica, respeitando a sua identidade cultural.
De acordo com a Fair Trade Federation, 70% dos artesãos de comércio justo são mulheres. É portanto no artesanato que a maioria das mulheres encontra, através das suas habilidades e conhecimentos, uma forma de quebrar o ciclo da pobreza. Até porque, muitas vezes, é o único trabalho que as mulheres podem exercer, seja por questões ligadas à baixa escolaridade e formação ou mesmo devido à postura das suas culturas em relação ao trabalho feminino remunerado.
Dentro do circuito do CJ as organizações produtoras têm como critério fundamental o pagamento de salários iguais para homens e mulheres com tarefas idênticas, prestando atenção às diferentes necessidades e estilos de vida de ambos os sexos. Mas como no exemplo da Grassroots HQ, artesãos da Tailândia, muitas organizações apostam também em fazer uma diferença nas suas comunidades: além de pagar salários dignos às suas trabalhadoras, a Grassroots trabalha para que as mulheres conheçam os seus direitos, aumentem a sua confiança e exijam respeito – encorajando as mulheres a formar pequenas cooperativas e a lutar contra a exploração social e, muito comum na Tailândia, a exploração do comércio sexual. Na Índia, outro país onde a condição da mulher é difícil, temos o exemplo do artesanato da Creative Handicrafts – ver última página.
Existem muitas outras organizações de CJ espalhadas pelo mundo que nascem pela força do trabalho das mulheres e muitas com membros apenas do sexo feminino. Estas mulheres são por vezes a principal fonte de sustento da sua família e conseguem, através da capacitação no seu trabalho, o reconhecimento como membros importantes da sua comunidade. Aqui o CJ é um meio decisivo para a melhoria das condições de vida, não apenas da mulher, mas dos círculos aos quais esta pertence. Por esta razão, algumas organizações providenciam não apenas o salário mas também cuidados médicos, subsidiam a criação de escolas e creches, assim como sistemas de micro crédito – ganhando estes últimos um papel cada vez mais importante na garantia da independência destas mulheres.
Entre as organizações agrícolas de CJ apontamos o exemplo da Kuapa Kokoo, que produz cacau no Ghana. Esta divide o trabalho de mulheres e homens em funções diferentes mas igualmente exigentes a nível físico e de horas de trabalho – aqui, os lucros obtidos através da venda pelo comércio justo, possibilitaram a aquisição de maquinaria que ajuda a reduzir o esforço dispendido na produção. Este caso tem sido paradigmático na luta contra a exploração do trabalho infantil, demasiado generalizada nos países africanos produtores de cacau.
Um exemplo muito pessoal de como o CJ influencia a vida das mulheres é o caso da camponesa produtora de café e presidente da Cecocafen, uma das cinco cooperativas de CJ da Nicarágua: “o preço de comércio justo deu-me a possibilidade de criar as minhas crianças, enviar a minha filha para a universidade e construir a minha casa”. |