Comércio livre ou comércio responsável? Pode ser esta a questão na mesa para o cidadão que se interroga sobre as grandes questões do momento, sejam os novos chavões das alterações climáticas ou a questão da sustentabilidade do nosso modo de vida, trazidos para o dia-a-dia.
Quando por todo o mundo político e em toda a imprensa económica especializada, os especialistas em comércio internacional acenam com a ideia de comércio livre como remédio santo para os problemas de desigualdade social no mundo – os conhecedores dos problemas no terreno, sejam activistas ligados à ecologia ou quem trabalha em desenvolvimento e cooperação, apontam outra solução mais realista e verdadeiramente global: um comércio responsável.
Ou seja, um comércio realmente livre não pode excluir regras, legislação ou cartas de princípios só porque sai das nossas fronteiras (legais e reais) e se deslocaliza para regiões com mão de obra ou recursos naturais mais baratos – com a liberdade, vem a responsabilidade, é uma ideia tão antiga como moderna.
E é por isso que, falar hoje de comércio internacional e do seu impacto no desenvolvimento, traz à liça tanto as condições laborais como as consequências ambientais da produção em grande escala, quando feitas sem respeito por regulamentação e sem cuidado verdadeiro com o impacto local - em qualquer região do mundo.
A meta da protecção ambiental, ao cuidar tanto do ambiente onde se integram as comunidades como da protecção da biodiversidade, é uma das que presidiu ao início do movimento do comércio justo (CJ) – um dos critérios basilares presentes na carta de princípios de todas as organizações de CJ. Como esta questão se coloca hoje ao movimento do CJ é um dos temas que tratamos neste boletim.
Na última página escolhemos falar de um projecto numa das regiões agrícolas mais pobres no norte da Índia – além da beleza desta boa ideia posta em prática e com resultados já quantificáveis, podemos ver aqui a diversidade de projectos que se juntam ao movimento do comércio justo em todo o mundo. O projecto Navdanya nasceu das preocupações de uma cientista que se confrontou no seu trabalho com a realidade de um meio científico dominante posto ao serviço das grandes fortunas e dos grandes poderes.
“Quando descobri que as grandes empresas queriam patentear sementes, colheitas e formas de vida, fundei o Navdanya com o objectivo de proteger a biodiversidade, defender os direitos dos agricultores e promover a agricultura biológica”. A professora indiana Vandana Shiva, fundadora deste projecto que hoje beneficia já milhares de famílias indianas, rejeitava assim esta ideia contrária à do Bem Comum, para a qual todos nós, cidadãos ou cientistas, gostaríamos de contribuir – uma espécie de Democracia de cidadãos da Terra, no que pode ser uma verdadeira e justa globalização. |