De acordo com o relatório de 2006 da Organização Internacional de Trabalho o trabalho infantil diminuiu pela primeira vez (11 por cento) a nível mundial – é contudo preocupante que em algumas regiões como a África subsariana ou o sudeste asiático o número de crianças que trabalham continue a subir.
Rapidamente concluímos que este indicador positivo é uma boa notícia que fica logo eclipsada por outros números gritantes: em 2004 existiam ainda 218 milhões de crianças que trabalhavam para sobreviver em todo o mundo, das quais 126 milhões realizavam trabalhos perigosos – e ainda muitos milhões são abusadas sob a forma de trabalho escravo, incorporação em conflitos armados, na prostituição e pornografia de menores, na produção e tráfico de drogas.
A recusa da exploração do trabalho infantil é um critério basilar no funcionamento do comércio Justo (CJ). A pobreza extrema de alguns países e regiões onde o CJ actua implica uma perspectiva mais integrada da realidade social onde as crianças vivem, de forma a aplicar esse critério de forma sustentada.
Decidimos por isso mostrar-lhe uma outra visão do trabalho infantil, que não apenas o condena mas que procura integrar e apoiar as crianças que têm de trabalhar para sobreviver. O exemplo vem do Peru e das crianças trabalhadoras do MANTHOC (Movimiento de Adolescentes y Niños Trabajadores, Hijos de Obreros Cristianos). Esta é uma associação sem fins lucrativos que luta pela dignificação do trabalho das crianças, pelo direito à educação e a cuidados de saúde. Os membros da associação, denominados de NAT (Niños e Adolescentes Trabajadores), unem-se a uma só voz contra o abuso e a exploração. A sua característica mais importante é que procuram atingir os seus objectivos através da formação de uma comunidade de NAT, no seio da qual discutem os seus problemas e constroem a sua própria identidade de crianças trabalhadoras. O seu percurso é acompanhado por adultos (muitos deles ex-NAT) que os ajudam na sua organização, na resolução de problemas e na promoção da sua formação educativa e profissional.
Mas seremos nós, cidadãos europeus, capazes de aceitar as reivindicações destes meninos trabalhadores, quando por exemplo exigem o fim do boicote aos artigos produzidos por crianças? E teremos a capacidade de aceitar e apoiar a criação de escolas com horários pós laborais para que crianças menores de 14 anos possam trabalhar e estudar? É duro mas é a realidade a pedir medidas concretas, à nossa frente.
Nestas sociedades é a pobreza absoluta que não deixa alternativa, como explica Robinson, de 12 anos, representante nacional do MANTOCH: “Imaginas o que é ter fome? É sonhar com um pedaço de arroz ou de frango e fingir que o estômago não dói para a mãe não ficar ainda mais triste”. |