#06 - 2007

 

 

 

 

Boletim CJ (nºs anteriores)

 

Boletim CJ #06 - 2007

 

Desenvolvimento e multiculturalismo na aldeia global

A cultura é, para além da economia, um dos mais velozes veículos de globalização. E na chamada aldeia global, o que está a acontecer à identidade cultural de cada povo?

A identidade cultural é a face de determinada cultura, desde o mais pequeno grupo até ao que hoje conhecemos por país/nação/estado, construída na interrelação dos indivíduos que os constituem. Esta construção de práticas culturais é sempre mutável, dado que as diferentes culturas vão mudando no espaço, no tempo e nas relações que vão estabelecendo entre si. A mutabilidade acelerada dos últimos séculos e especialmente das últimas décadas - fenómeno ligado à globalização – resulta de uma cada vez maior assimilação de práticas de umas culturas pelas outras. Na senda de uma sociedade global equilibrada, não pode esta assimilação cultural tornar-se pretexto ou justificação para a violação da identidade cultural de cada sociedade – ou de qualquer indivíduo.

Podemos aqui falar numa espécie de “atitude colonizadora” das culturas dominantes? Se analisarmos por exemplo os grandes investimentos de empresas em países de economia menos desenvolvida, descobrimos além do impacto económico e social, profundas alterações a nível cultural – desde os horários de trabalho aos estilos de vida, incluindo vestuário, formas de relacionamento e, claro, de alimentação. Imagine-se por exemplo o impacto da instalação de serviços de help-desk e contact-centers (suporte informático ou telefónico) de empresas de países mais desenvolvidos num país como a Índia, conhecida pela tecnologia de ponta mas também famosa pelos baixos salários - os baixos custos de produção atraíram muitos destes serviços que funcionam 24 horas ou condicionados pelos horários e processos de trabalho do outro lado do mundo.

Desenvolvimento vs. identidade cultural?

Desenvolvimento é, hoje, sinónimo de riqueza, de uma economia forte. Na senda de um mundo melhor para todos, na senda de uma economia à escala global, não se tem equacionado o papel dos países menos desenvolvidos. Porque na realidade mundial aquele que detiver maior poder económico, mais facilmente exportará a sua cultura - cinema, música, alimentação, moda etc., a par com tudo o resto, dos meios de transporte e tecnologia, às empresas ou armamento – em quantidade e a preços baixos, suplantando muitas vezes as culturas locais e o seu desenvolvimento.

Esta troca de bens e serviços à escala global, acompanhada pelo avanço feroz da sociedade de informação, não pode significar o desrespeito pela multiplicidade cultural existente no globo. Mas os estados dos países menos desenvolvidos são economicamente impotentes face à importação de produtos culturais estrangeiros. As diferentes culturas são constantemente desafiadas, quer no país de origem, quer quando acompanham o fenómeno das migrações - questões como a do véu islâmico em França ou a música/roupa/estilo de vida Rap de influência americana na comunidade africana de segunda geração em Portugal, trazem estas questões complexas para perto de nós.

Constatamos que na esteira de um desenvolvimento equilibrado temos sempre de falar de uma globalização plural, nunca singular. É que o respeito pela identidade cultural e a preservação do diálogo entre as várias culturas, promovem o desenvolvimento equilibrado - mas esta não é nunca uma questão linear ou uma tarefa simples. E tal como se extinguem as espécies, também as religiões ancestrais se extinguem, também as línguas desaparecem, também os modos de trabalhar a terra se perdem.

Alternativas existem - o movimento de comércio justo (CJ) mostra algumas.

O papel do CJ face à diversidade cultural

Um dos critérios do CJ diz respeito à preservação da identidade cultural, não apenas porque é um direito humano mas também no sentido de promover uma sociedade global coesa e heterogénea. Além da tarefa de capacitação e valorização das comunidades e das pessoas, o CJ aposta em projectos locais que preservem a cultura material – seja a agricultura tradicional que promove espécies autóctones ou o artesanato mais genuíno e ancestral. Para utilizar o comércio como uma ferramenta de desenvolvimento é preciso apoiar agricultores e artesãos do mundo inteiro e valorizar os seus produtos. No seio do movimento discutem-se formas de abordar as mais diversas culturas, sem suprimir as tradições.

Exemplos? Na agricultura podemos apontar o cultivo da quinoa nos Andes: o socialmente desprezado “cereal dos Incas” é neste momento exportado em grande quantidade para a Europa pela ANAPQUI - associação nacional de produtores de quinoa, em colaboração com as importadoras de CJ. A quinoa obteve a valorização cultural merecida: já ostenta a certificação Bio devido ao seu cultivo tradicional sem pesticidas nas encostas dos Andes; a FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura reconheceu a quinoa como um dos alimentos mais completos do mundo e entra na composição de outros produtos como massas e biscoitos de CJ.

Já para um bom exemplo no artesanato de CJ, leia sobre a nepalesa ACP no artigo da última página. Mas podemos apontar outro bom exemplo do apoio do CJ: a organização Aid to Artisans tem programas de formação em design para artesãos dos países do sul, que procuram obviar o risco de perda de autenticidade valorizando a identidade - assim se consegue promover a ideia de uma aldeia global construída por todos os que nela vivem. Nesta preservação da cultura e das identidades culturais de todas as comunidades com que trabalha, o CJ tem um meio para alcançar o fim a que se propôs: um mundo mais justo.

apoio:

Ficha técnica: Coordenação de projecto: Cores do Globo - Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: CIDAC - Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Reviravolta - Associação para a Promoção do Comércio Justo | Apoios: IPAD - Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento | Concepção gráfica: Evatrai craft design | Adaptação WWW: Cores do Globo

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