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A cultura é, para além da economia, um dos mais
velozes veículos de globalização. E na chamada aldeia
global, o que está a acontecer à identidade cultural
de cada povo?
A identidade cultural é a face de determinada cultura,
desde o mais pequeno grupo até ao que hoje conhecemos
por país/nação/estado, construída na interrelação dos
indivíduos que os constituem. Esta construção de
práticas culturais é sempre mutável, dado que as
diferentes culturas vão mudando no espaço, no tempo e
nas relações que vão estabelecendo entre si. A
mutabilidade acelerada dos últimos séculos e
especialmente das últimas décadas - fenómeno ligado à
globalização – resulta de uma cada vez maior
assimilação de práticas de umas culturas pelas outras.
Na senda de uma sociedade global equilibrada, não pode
esta assimilação cultural tornar-se pretexto ou
justificação para a violação da identidade cultural de
cada sociedade – ou de qualquer indivíduo.
Podemos aqui falar numa espécie de “atitude
colonizadora” das culturas dominantes? Se analisarmos
por exemplo os grandes investimentos de empresas em
países de economia menos desenvolvida, descobrimos
além do impacto económico e social, profundas
alterações a nível cultural – desde os horários de
trabalho aos estilos de vida, incluindo vestuário,
formas de relacionamento e, claro, de alimentação.
Imagine-se por exemplo o impacto da instalação de
serviços de help-desk e contact-centers
(suporte informático ou telefónico) de empresas de
países mais desenvolvidos num país como a Índia,
conhecida pela tecnologia de ponta mas também famosa
pelos baixos salários - os baixos custos de produção
atraíram muitos destes serviços que funcionam 24 horas
ou condicionados pelos horários e processos de
trabalho do outro lado do mundo.
Desenvolvimento vs. identidade cultural?
Desenvolvimento é, hoje, sinónimo de riqueza, de uma
economia forte. Na senda de um mundo melhor para
todos, na senda de uma economia à escala global, não
se tem equacionado o papel dos países menos
desenvolvidos. Porque na realidade mundial aquele que
detiver maior poder económico, mais facilmente
exportará a sua cultura - cinema, música, alimentação,
moda etc., a par com tudo o resto, dos meios de
transporte e tecnologia, às empresas ou armamento – em
quantidade e a preços baixos, suplantando muitas vezes
as culturas locais e o seu desenvolvimento.
Esta troca de bens e serviços à escala global,
acompanhada pelo avanço feroz da sociedade de
informação, não pode significar o desrespeito pela
multiplicidade cultural existente no globo. Mas os
estados dos países menos desenvolvidos são
economicamente impotentes face à importação de
produtos culturais estrangeiros. As diferentes
culturas são constantemente desafiadas, quer no país
de origem, quer quando acompanham o fenómeno das
migrações - questões como a do véu islâmico em França
ou a música/roupa/estilo de vida Rap de influência
americana na comunidade africana de segunda geração em
Portugal, trazem estas questões complexas para perto
de nós.
Constatamos que na esteira de um desenvolvimento
equilibrado temos sempre de falar de uma globalização
plural, nunca singular. É que o respeito pela
identidade cultural e a preservação do diálogo entre
as várias culturas, promovem o desenvolvimento
equilibrado - mas esta não é nunca uma questão linear
ou uma tarefa simples. E tal como se extinguem as
espécies, também as religiões ancestrais se extinguem,
também as línguas desaparecem, também os modos de
trabalhar a terra se perdem.
Alternativas existem - o movimento de comércio justo (CJ)
mostra algumas.
O papel do CJ face à diversidade cultural
Um dos critérios do CJ diz respeito à preservação da
identidade cultural, não apenas porque é um direito
humano mas também no sentido de promover uma sociedade
global coesa e heterogénea. Além da tarefa de
capacitação e valorização das comunidades e das
pessoas, o CJ aposta em projectos locais que preservem
a cultura material – seja a agricultura tradicional
que promove espécies autóctones ou o artesanato mais
genuíno e ancestral. Para utilizar o comércio como uma
ferramenta de desenvolvimento é preciso apoiar
agricultores e artesãos do mundo inteiro e valorizar
os seus produtos. No seio do movimento discutem-se
formas de abordar as mais diversas culturas, sem
suprimir as tradições.
Exemplos? Na agricultura podemos apontar o cultivo da
quinoa nos Andes: o socialmente desprezado “cereal dos
Incas” é neste momento exportado em grande quantidade
para a Europa pela ANAPQUI - associação nacional de
produtores de quinoa, em colaboração com as importadoras de CJ. A
quinoa obteve a valorização cultural merecida: já
ostenta a certificação Bio devido ao seu cultivo
tradicional sem pesticidas nas encostas dos Andes; a
FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação
e Agricultura reconheceu a quinoa como um dos
alimentos mais completos do mundo e entra na
composição de outros produtos como massas e biscoitos
de CJ.
Já para um bom exemplo no artesanato de CJ, leia sobre
a nepalesa ACP no
artigo da última página. Mas podemos apontar outro bom
exemplo do apoio do CJ: a organização
Aid to
Artisans tem programas de formação em design para
artesãos dos países do sul, que procuram obviar o
risco de perda de autenticidade valorizando a
identidade - assim se consegue promover a ideia de uma
aldeia global construída por todos os que nela vivem.
Nesta preservação da cultura e das identidades
culturais de todas as comunidades com que trabalha, o
CJ tem um meio para alcançar o fim a que se propôs: um
mundo mais justo. |