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A identidade cultural fala de si na língua mãe, a
língua que aprendemos enquanto crescemos, aquela que
nos faz a nós, portugueses, dizer que Saudade é
intraduzível. Segundo o
Relatório do Desenvolvimento
Humano das Nações Unidas de 2004, existem cerca de
6.000 línguas faladas - das 10.000 que existiam há
alguns séculos - e este número tem tendência a baixar
entre 50% a 90% nos próximos cem anos. No entanto, já
hoje a política funciona com decisões importantes
tomadas em línguas oficiais que não contemplam os
nichos culturais existentes.
O mesmo se passa de forma global. A identidade
cultural é atropelada pela não compreensão do “outro”
que não fala a mesma língua que nós. Temos o exemplo
da OMC (Organização Mundial do Comércio), que tomou
como línguas oficiais o inglês, o francês, o alemão e
o espanhol: é o que encontramos quando visitamos o seu
sítio na Internet, um exemplo de como as decisões
podem estar longe de nós estando os documentos tão
perto.
Neste sentido podemos referenciar o trabalho da
Oxfam no Afeganistão, que desenvolve projectos de
educação bilingue junto das comunidades com que
trabalha – em Pastum e em Dari, que são as duas
línguas faladas pela maioria da população, num país
com cerca de 30 línguas. Merece destaque entre outros
trabalhos que conservam a preocupação pela educação
bilingue, porque um dos pontos fundamentais neste
projecto é garantir que o ensino seja praticado na
língua materna – falada no país ou no dialecto local –
de forma a facilitar a compreensão dos educandos e
combater o analfabetismo. Preservar a língua materna é
essencial para o desenvolvimento, para além de ser um
direito humano inalienável.
Uma segunda referência nesta questão da identidade
cultural é o trabalho que começou a ser feito em
paralelo com o CJ e se tem desenvolvido muito nos
últimos anos: o chamado turismo ético e solidário – ou
responsável, sustentável – que se baseia precisamente
na ideia de contrariar a massificação do turismo e o
seu efeito brutal na desagregação cultural das
pequenas comunidades e dos países economicamente menos
desenvolvidos. Um turismo que contribua para a
sustentabilidade das comunidades e da natureza que
visita, que contribua para a economia local, que não
delapide os recursos e valorize a cultura da
comunidade/país – é esta a alternativa que já é
possível escolher pelo turista mais alertado para
estas questões. A Mó de Vida, cooperativa portuguesa
de comércio justo, tem desenvolvido em Portugal as
primeiras viagens deste turismo ético. |