#04 - 2006

 

 

 

 

 

Boletim CJ (nºs anteriores)

 

Boletim CJ #05 - 2006

Por um consumo responsável

Consumir já não é uma mera aquisição de bens necessários à nossa sobrevivência mas tornou-se um acto que fazemos em qualquer hora do dia ou da noite e em todas as áreas da nossa vida. E porque é preciso responsabilizarmo-nos por este consumo?

As notícias que nos chegam de todos os cantos do mundo - catástrofes ecológicas, hecatombes humanitárias e políticas, as consequências do efeito de estufa - fazem-nos tomar consciência de que o nosso habitat natural, onde todos vivemos dependentes uns dos outros e do equilíbrio com a natureza, não aguenta muitos mais anos de utilização intensiva como a que se fomentou no século XX.

Segundo o PNUD – Plano das Nações Unidas para o Desenvolvimento, no relatório de 1998, é urgente “mudar os padrões de consumo para o desenvolvimento humano do futuro”. Os números são claros: os 20% mais ricos da população mundial, gastam 75% dos recursos naturais do planeta – os 20% que vivem em pobreza extrema têm apenas 5% dos recursos para sobreviver.

Em Portugal, o consumo aumentou exponencialmente com a abertura ao mercado externo e a instabilidade do nosso sistema económico e financeiro tem vindo a realçar assimetrias a nível social: cerca de 21% dos portugueses vive abaixo do limiar da pobreza. Mas há também alguma esperança: nunca como hoje tivemos tantas ferramentas para fazer ouvir a nossa voz de cidadãos ou para fazer escolhas mais éticas ou ecológicas de consumidores.

A grande questão que se coloca hoje, tanto a nível local como global, é saber como inverter a situação, como “satisfazer as necessidades e aspirações de hoje sem comprometer as necessidades das futuras gerações?”1.


Consciencializar para o poder que cada consumidor tem com as suas opções de compra é fulcral para a formação das novas gerações nesta ideia de consumo responsável. O apelo é tanto a cada um de nós, consumidor individual, como aos colectivos, instituições e empresas - para uma urgente mudança de comportamentos.

Um consumo responsável tanto inclui critérios éticos como a ideia de sustentabilidade ambiental: é preciso consumir diferente, ter mais e melhor informação sobre os produtos – os seus custos sociais e o impactos ambientais. Ser um novo consumidor - o “Consumactor” que fala Beja Santos no livro homónimo - que recusa produtos que têm por trás a exploração dos trabalhadores , das crianças, das mulheres, das comunidades locais.

Estes são também os princípios e garantias do circuito alternativo de comércio justo (CJ), um instrumento eficiente no combate à pobreza e à persecução dos Objectivos do Milénio definidos pela ONU - confirmado pela Resolução do Parlamento Europeu aprovada este ano. Na Europa o movimento CJ tem sido uma força motriz para a crescente pressão do consumidor responsável junto das empresas e instituições para a inclusão de cláusulas sociais e ambientais nas suas compras e nas suas práticas.

Quem é o novo consumidor?

Mas quem é este novo consumidor, que faz um consumo responsável? Qual o perfil deste novo cidadão, sintonizado com o mundo em que vive e empenhado em ser parte activa? Não é com certeza um Super-Homem ou uma Super-Mulher, com energia, activismo e visão ilimitados. Para fazer um consumo responsável é mesmo preciso é sermos humanos.

Humanos, capazes de nos entusiasmarmos por boas ideias e investirmos energia a colocá-las em prática. Capazes de empatia com os outros seres e com a natureza, procurando viver em harmonia. Empenhados nesta tarefa diária, atenta e infindável – precisamos de todos os consumidores, não de um super-herói.

Vivemos no mesmo planeta e temos de pensar a globalização com um trunfo, utilizando-a a nosso favor. Se por um lado a globalização acentuou a interdependência e as relações mundiais, sublinhando as assimetrias sociais entre os países/populações mais ricos e mais pobres, com a maioria dos governos nacionais a perderem o poder político face à economia e às empresas transnacionais - na realidade, são os cidadãos que têm de ser o contra poder desta situação. Como afirma Eveline Herfkens, a responsável pela maior campanha internacional de sempre, a Campanha pelos Objectivos do Milénio da ONU, “não haverá desenvolvimento nos países onde os cidadãos não participam nas decisões que afectam as suas próprias vidas. Portanto o que tentamos fazer é dar poder ao cidadão para fiscalizar o seu governo e instituições.”2


É possível e urgente criar alternativas: fazer com que as regras do comércio internacional defendam os direitos humanos, os direitos laborais e o meio ambiente, é um dos principais desafios do século XXI. Está ao alcance de todos nós, consumidores.

Ferramentas para o desenvolvimento sustentável

Além das mudanças práticas que podemos fazer no nosso consumo diário (ver caixa), muitas das vezes nos interrogamos como podemos fazer a diferença num contexto mais global. A participação cívica local, com impacto até nas medidas económicas e políticas do nosso país, é um dos modos como cada consumidor pode influenciar um desenvolvimento sustentável global: a Boa Governança – a boa governação e o prestar contas interferem a todos os níveis de decisão, seja na nossa cooperativa local ou na administração de uma multinacional – envolva-se; os Instrumentos económicos - Quem paga o desenvolvimento sustentável? Há muitas ideias, desde a Taxa Tobin sobre as Transacções Comerciais à proposta de taxar a produção de CO2 ou os instrumentos económicos como taxas de utilização, descontos nos impostos e fim dos subsídios perversos – apoie essas medidas; a Educação para o Desenvolvimento - Uma arma poderosa e tão mais eficaz quanto mais cedo é instilada: os conteúdos pedagógicos e as campanhas a articular no triângulo Escola – Família – Sociedade devem promover o consumo responsável; as Campanhas - Todos nos podemos associar pelo os meios ao nosso dispor, fazendo pequenas acções, assinando protestos, divulgando as causas sociais ou ambientais; a Participação democrática – a todos os níveis, do local ao global, é votando ou condenando que se exige boa governança e melhores instrumentos para o desenvolvimento sustentável.

1 in relatório sobre Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, de 1987, “O Nosso Futuro Comum”, ver em www.un.org

2 in Notícias Magazine, 2 de Outubro 2006

 

apoio:

Ficha técnica: Coordenação de projecto: Cores do Globo – Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Reviravolta - Associação para a Promoção do Comércio Justo | Apoios: IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento | Concepção gráfica: Evatrai craft design | Adaptação WWW: Cores do Globo