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Consumir já
não é uma mera aquisição de bens necessários à nossa
sobrevivência mas tornou-se um acto que fazemos em
qualquer hora do dia ou da noite e em todas as áreas
da nossa vida. E porque é preciso
responsabilizarmo-nos por este consumo?
As notícias que nos chegam de todos os cantos do mundo
- catástrofes ecológicas, hecatombes humanitárias e
políticas, as consequências do efeito de estufa -
fazem-nos tomar consciência de que o nosso habitat
natural, onde todos vivemos dependentes uns dos outros
e do equilíbrio com a natureza, não aguenta muitos
mais anos de utilização intensiva como a que se
fomentou no século XX.
Segundo o PNUD – Plano das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, no relatório de 1998, é urgente
“mudar os padrões de consumo para o desenvolvimento
humano do futuro”. Os números são claros: os 20% mais
ricos da população mundial, gastam 75% dos recursos
naturais do planeta – os 20% que vivem em pobreza
extrema têm apenas 5% dos recursos para sobreviver.
Em Portugal, o consumo aumentou exponencialmente com a
abertura ao mercado externo e a instabilidade do nosso
sistema económico e financeiro tem vindo a realçar
assimetrias a nível social: cerca de 21% dos
portugueses vive abaixo do limiar da pobreza. Mas há
também alguma esperança: nunca como hoje tivemos
tantas ferramentas para fazer ouvir a nossa voz de
cidadãos ou para fazer escolhas mais éticas ou
ecológicas de consumidores.
A grande questão que se coloca hoje, tanto a nível
local como global, é saber como inverter a situação,
como “satisfazer as necessidades e aspirações de hoje
sem comprometer as necessidades das futuras gerações?”1.
Consciencializar para o poder que cada consumidor tem
com as suas opções de compra é fulcral para a formação
das novas gerações nesta ideia de consumo responsável.
O apelo é tanto a cada um de nós, consumidor
individual, como aos colectivos, instituições e
empresas - para uma urgente mudança de comportamentos.
Um consumo responsável tanto inclui critérios éticos
como a ideia de sustentabilidade ambiental: é preciso
consumir diferente, ter mais e melhor informação sobre
os produtos – os seus custos sociais e o impactos
ambientais. Ser um novo consumidor - o “Consumactor”
que fala Beja Santos no livro homónimo - que recusa
produtos que têm por trás a exploração dos
trabalhadores , das crianças, das mulheres, das
comunidades locais.
Estes são também os princípios e garantias do circuito
alternativo de comércio justo (CJ), um instrumento
eficiente no combate à pobreza e à persecução dos
Objectivos do Milénio definidos pela ONU - confirmado
pela Resolução do Parlamento Europeu aprovada este
ano. Na Europa o movimento CJ tem sido uma força
motriz para a crescente pressão do consumidor
responsável junto das empresas e instituições para a
inclusão de cláusulas sociais e ambientais nas suas
compras e nas suas práticas.
Quem é o novo consumidor?
Mas quem é este novo consumidor, que faz um consumo
responsável? Qual o perfil deste novo cidadão,
sintonizado com o mundo em que vive e empenhado em ser
parte activa? Não é com certeza um Super-Homem ou uma
Super-Mulher, com energia, activismo e visão
ilimitados. Para fazer um consumo responsável é mesmo
preciso é sermos humanos.
Humanos, capazes de nos entusiasmarmos por boas ideias
e investirmos energia a colocá-las em prática. Capazes
de empatia com os outros seres e com a natureza,
procurando viver em harmonia. Empenhados nesta tarefa
diária, atenta e infindável – precisamos de todos os
consumidores, não de um super-herói.
Vivemos no mesmo planeta e temos de pensar a
globalização com um trunfo, utilizando-a a nosso
favor. Se por um lado a globalização acentuou a
interdependência e as relações mundiais, sublinhando
as assimetrias sociais entre os países/populações mais
ricos e mais pobres, com a maioria dos governos
nacionais a perderem o poder político face à economia
e às empresas transnacionais - na realidade, são os
cidadãos que têm de ser o contra poder desta situação.
Como afirma Eveline Herfkens, a responsável pela maior
campanha internacional de sempre, a Campanha pelos
Objectivos do Milénio da ONU, “não haverá
desenvolvimento nos países onde os cidadãos não
participam nas decisões que afectam as suas próprias
vidas. Portanto o que tentamos fazer é dar poder ao
cidadão para fiscalizar o seu governo e instituições.”2
É possível e urgente criar alternativas: fazer com que
as regras do comércio internacional defendam os
direitos humanos, os direitos laborais e o meio
ambiente, é um dos principais desafios do século XXI.
Está ao alcance de todos nós, consumidores.
Ferramentas para o desenvolvimento sustentável
Além das mudanças práticas que podemos fazer no nosso
consumo diário (ver caixa), muitas das vezes nos
interrogamos como podemos fazer a diferença num
contexto mais global. A participação cívica local, com
impacto até nas medidas económicas e políticas do
nosso país, é um dos modos como cada consumidor pode
influenciar um desenvolvimento sustentável global: a
Boa Governança – a boa governação e o prestar
contas interferem a todos os níveis de decisão, seja
na nossa cooperativa local ou na administração de uma
multinacional – envolva-se; os Instrumentos
económicos - Quem paga o desenvolvimento
sustentável? Há muitas ideias, desde a Taxa Tobin
sobre as Transacções Comerciais à proposta de taxar a
produção de CO2 ou os instrumentos económicos como
taxas de utilização, descontos nos impostos e fim dos
subsídios perversos – apoie essas medidas; a
Educação para o Desenvolvimento - Uma arma
poderosa e tão mais eficaz quanto mais cedo é
instilada: os conteúdos pedagógicos e as campanhas a
articular no triângulo Escola – Família – Sociedade
devem promover o consumo responsável; as Campanhas
- Todos nos podemos associar pelo os meios ao nosso
dispor, fazendo pequenas acções, assinando protestos,
divulgando as causas sociais ou ambientais; a
Participação democrática – a todos os níveis, do
local ao global, é votando ou condenando que se exige
boa governança e melhores instrumentos para o
desenvolvimento sustentável.
1 in relatório sobre Desenvolvimento Sustentável das
Nações Unidas, de 1987, “O Nosso Futuro Comum”, ver em
www.un.org
2
in Notícias Magazine, 2 de Outubro 2006
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