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O comércio
justo não é apenas uma relação comercial ética. E não
se resume sequer a uma justiça de preços mínimos
garantidos, esse apenas pode ser um ponto de partida,
um começo para a estabilidade na vida dos pequenos
produtores.
E porquê? É simples: partimos de uma situação tão
desequilibrada em termos de justiça social e económica
que, se vamos querer realmente fazer mudanças na vida
na das populações mais carenciadas dos países do Sul e
se o que queremos é dar oportunidades de acesso aos
mercados do Norte, há uma intervenção essencial a
fazer num trabalho de cooperação: a capacitação, o
fortalecimento dos pequenos produtores e das suas
actividades económicas.
Esta capacitação tem várias vertentes, desde a
formação técnica até ao desenvolvimento de
competências pessoais e sociais através da educação
não formal, mas que em determinadas comunidades ou
países não é incentivada, como a capacidade de
organização democrática de uma associação de artesãos
ou uma cooperativa de agricultores de modo a que todos
se possam envolver no projecto e trabalhar em conjunto
– falámos de um bom exemplo no
Boletim #2, a Kuappa Kokoo do Gana. Ou por exemplo
a capacitação das mulheres em comunidades onde o papel
da mulher é desvalorizado e a capacidade económica é
baixíssima, de forma a obterem o merecido ganho com o
seu trabalho - como as cooperativas de mulheres que no
Bangladesh produzem cestaria, reunidas na organização
BRAC-Aarong.
Para ficar mais claro, podemos destrinçar a
importância da educação não-formal, salvaguardando que
o respeito pela cultura local não é incompatível com
oportunidades de formação. Porque esta mesma inovação
na formação é uma exigência dos próprios produtores e
produtoras, não é uma decisão unívoca que parte das
organizações não-governamentais (ONG) e importadoras.
É que a melhoria das condições de vida depende da
maior capacidade produtiva e organizativa, logo são os
próprios produtores que sentem essa necessidade e
apostam em melhorar o seu funcionamento.
Os parceiros que implementam esta formação ou acções
de capacitação são as importadoras de CJ, na maior
parte das vezes apoiadas por ONG ou outras entidades
com acções muito concretas no terreno. Quando
falávamos da importância de capacitar os produtores
para se organizarem é porque esta é uma das lições que
a experiência em cooperação para o desenvolvimento tem
ensinado: um dos indicadores que garantem um trabalho
mais continuado e com resultados no CJ é que a
capacitação não seja feita de forma fragmentada e
individual com os produtores, mas com organizações de
produtores ou cooperativas de artesãos ou ainda outros
exemplos organizativos adaptados à realidade local. É
disso exemplo a forma original como a
CTM-Altromercato
conseguiu nos últimos anos apoiar a criação de uma
cadeia têxtil ética, desde o cultivo do algodão bio
até ao design e à confecção, fortalecendo a associação
dos antigos trabalhadores das fábricas de têxteis
falidas na Argentina!
Destes diferentes modos se garante que o apoio e a
formação dada por determinado período perdure no
tempo, que os produtores/organizações continuem a
transmitir essa informação e a melhorar as capacidades
produtivas (e sociais!) muito depois do projecto de
capacitação ter terminado. Obviamente que essa
capacitação é decidida em diálogo que junta
organizações produtoras, ONG e importadoras de CJ,
numa relação de acompanhamento interdependente.
Neste contexto da formação e apoio técnico, em vez de
focar na capacitação tradicional para melhoria de
produtos, as importadoras e ONG perceberam que tinham
de inovar: num mercado cada vez mais competitivo e
onde a comunicação e o design são funções decisivas, é
preciso fazer o circuito funcionar em ambos os
sentidos para que os produtores de CJ possam ser
inseridos no sistema de comércio mundial. Não basta
apenas aumentar a produção e garantir as entregas, o
produtor deve saber claramente para quem produz, deve
ter em conta as apetências, estilos e expectativas do
consumidor. Um consumidor que faz a sua parte do
percurso procurando um produto com garantias éticas e
de autenticidade cultural.
Como explica sobre este assunto a importadora
IDEAS “isso
implica segmentar o nosso mercado e adaptar o nosso
produto, sem perder os materiais tradicionais e a
cultura de base, ao consumidor europeu. Por isso, o
curso de formação de produtores que damos nos últimos
anos tem uma base muito sólida e pragmática acerca do
movimento de CJ: clarificamos quais os requerimentos
que devem cumprir, o que é um selo de garantia e,
muito importante, quais a características que têm sido
fundamentais aos grupos produtores de CJ que têm mais
sucesso – além de um panorama claro da cadeia
comercial, com formação acerca do consumidor de CJ e
como funciona o nosso trabalho de inserção de produtos
no mercado.”
Neste ponto, todas as importadoras são unânimes: é
fulcral trabalhar com os produtores para seleccionar e
desenvolver produtos para a procura do mercado sem
perder a mais-valia da autenticidade, desde a
transmissão aos artesãos de que estilos e tendências
seguem a moda europeia até à actualização das novas
normas sanitárias europeias para produtos alimentares
– trabalhando também a capacidade de armazenamento e
de embalagem para manter os produtos com qualidade.
Como conclui a francesa
Artisans du
Monde, no seu estudo sobre 25 anos de actividade
na comercialização de artesanato de CJ, são muitos os
desafios que a economia de mercado actual coloca às
organizações, aos produtores e produtoras, mas também
a todos nós, enquanto consumidores/as com preocupações
éticas e ambientais. |