#04 - 2006

 

 

 

 

 

Boletim CJ (nºs anteriores)

 

Boletim CJ #04 - 2006

Capacitação

O comércio justo não é apenas uma relação comercial ética. E não se resume sequer a uma justiça de preços mínimos garantidos, esse apenas pode ser um ponto de partida, um começo para a estabilidade na vida dos pequenos produtores.

E porquê? É simples: partimos de uma situação tão desequilibrada em termos de justiça social e económica que, se vamos querer realmente fazer mudanças na vida na das populações mais carenciadas dos países do Sul e se o que queremos é dar oportunidades de acesso aos mercados do Norte, há uma intervenção essencial a fazer num trabalho de cooperação: a capacitação, o fortalecimento dos pequenos produtores e das suas actividades económicas.

Esta capacitação tem várias vertentes, desde a formação técnica até ao desenvolvimento de competências pessoais e sociais através da educação não formal, mas que em determinadas comunidades ou países não é incentivada, como a capacidade de organização democrática de uma associação de artesãos ou uma cooperativa de agricultores de modo a que todos se possam envolver no projecto e trabalhar em conjunto – falámos de um bom exemplo no Boletim #2, a Kuappa Kokoo do Gana. Ou por exemplo a capacitação das mulheres em comunidades onde o papel da mulher é desvalorizado e a capacidade económica é baixíssima, de forma a obterem o merecido ganho com o seu trabalho - como as cooperativas de mulheres que no Bangladesh produzem cestaria, reunidas na organização BRAC-Aarong.

Para ficar mais claro, podemos destrinçar a importância da educação não-formal, salvaguardando que o respeito pela cultura local não é incompatível com oportunidades de formação. Porque esta mesma inovação na formação é uma exigência dos próprios produtores e produtoras, não é uma decisão unívoca que parte das organizações não-governamentais (ONG) e importadoras. É que a melhoria das condições de vida depende da maior capacidade produtiva e organizativa, logo são os próprios produtores que sentem essa necessidade e apostam em melhorar o seu funcionamento.

Os parceiros que implementam esta formação ou acções de capacitação são as importadoras de CJ, na maior parte das vezes apoiadas por ONG ou outras entidades com acções muito concretas no terreno. Quando falávamos da importância de capacitar os produtores para se organizarem é porque esta é uma das lições que a experiência em cooperação para o desenvolvimento tem ensinado: um dos indicadores que garantem um trabalho mais continuado e com resultados no CJ é que a capacitação não seja feita de forma fragmentada e individual com os produtores, mas com organizações de produtores ou cooperativas de artesãos ou ainda outros exemplos organizativos adaptados à realidade local. É disso exemplo a forma original como a CTM-Altromercato conseguiu nos últimos anos apoiar a criação de uma cadeia têxtil ética, desde o cultivo do algodão bio até ao design e à confecção, fortalecendo a associação dos antigos trabalhadores das fábricas de têxteis falidas na Argentina!

Destes diferentes modos se garante que o apoio e a formação dada por determinado período perdure no tempo, que os produtores/organizações continuem a transmitir essa informação e a melhorar as capacidades produtivas (e sociais!) muito depois do projecto de capacitação ter terminado. Obviamente que essa capacitação é decidida em diálogo que junta organizações produtoras, ONG e importadoras de CJ, numa relação de acompanhamento interdependente.

Neste contexto da formação e apoio técnico, em vez de focar na capacitação tradicional para melhoria de produtos, as importadoras e ONG perceberam que tinham de inovar: num mercado cada vez mais competitivo e onde a comunicação e o design são funções decisivas, é preciso fazer o circuito funcionar em ambos os sentidos para que os produtores de CJ possam ser inseridos no sistema de comércio mundial. Não basta apenas aumentar a produção e garantir as entregas, o produtor deve saber claramente para quem produz, deve ter em conta as apetências, estilos e expectativas do consumidor. Um consumidor que faz a sua parte do percurso procurando um produto com garantias éticas e de autenticidade cultural.

Como explica sobre este assunto a importadora IDEAS “isso implica segmentar o nosso mercado e adaptar o nosso produto, sem perder os materiais tradicionais e a cultura de base, ao consumidor europeu. Por isso, o curso de formação de produtores que damos nos últimos anos tem uma base muito sólida e pragmática acerca do movimento de CJ: clarificamos quais os requerimentos que devem cumprir, o que é um selo de garantia e, muito importante, quais a características que têm sido fundamentais aos grupos produtores de CJ que têm mais sucesso – além de um panorama claro da cadeia comercial, com formação acerca do consumidor de CJ e como funciona o nosso trabalho de inserção de produtos no mercado.”

Neste ponto, todas as importadoras são unânimes: é fulcral trabalhar com os produtores para seleccionar e desenvolver produtos para a procura do mercado sem perder a mais-valia da autenticidade, desde a transmissão aos artesãos de que estilos e tendências seguem a moda europeia até à actualização das novas normas sanitárias europeias para produtos alimentares – trabalhando também a capacidade de armazenamento e de embalagem para manter os produtos com qualidade.

Como conclui a francesa Artisans du Monde, no seu estudo sobre 25 anos de actividade na comercialização de artesanato de CJ, são muitos os desafios que a economia de mercado actual coloca às organizações, aos produtores e produtoras, mas também a todos nós, enquanto consumidores/as com preocupações éticas e ambientais.

apoio:

Ficha técnica: Coordenação de projecto: Cores do Globo – Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Reviravolta - Associação para a Promoção do Comércio Justo | Apoios: IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento | Concepção gráfica: Evatrai craft design | Adaptação WWW: Cores do Globo