#03 - 2006

 
 

 

 

 

 

boletim CJ (nºs anteriores)

 

boletim CJ #03 - 2006 

A Educação para o Desenvolvimento e o CJ
Se na segunda metade do século XX assistimos a um crescimento da riqueza mundial, agravaram-se igualmente as assimetrias económicas - entre as nações e também dentro dos países. Consequentemente, cresceram os desajustamentos globais: dispararam as migrações e com elas o congestionamento dos meios urbanos; assistiu-se a uma total desregulamentação ambiental; novas pandemias ultrapassaram fronteiras; aumentou a insegurança. A sociedade mundial viu-se a braços com as consequências nefastas desta desordem do mundo e com o grande desafio de o “reorganizar”.

Como o comércio pode ser uma boa ferramenta para o crescimento económico dos povos, pensou-se que a solução para a integração dos menos desenvolvidos seria então a liberalização dos mercados mundiais, com a consequente abolição das taxas aduaneiras, proibição do proteccionismo, redução da intervenção do Estado, em suma, deixar o mercado funcionar segundo a lei da oferta e da procura. No entanto, estas medidas só vieram acentuar o fosso entre ricos e pobres pois estes não tinham meios, nem estavam devidamente preparados para competir neste novo mundo livre.

Assim nasceu, há cerca de quatro décadas, o comércio justo (CJ) com o intuito de dar uma hipótese às comunidades mais pobres de fazerem parte desse mercado globalizado supostamente livre. Acontece que o CJ não é somente um acordo comercial, desde a sua criação que existe uma dimensão educativa indissociável da venda dos produtos: é a vertente da Educação que visa a sensibilização e informação dos consumidores e a promoção de campanhas com vista à alteração das regras do comércio internacional. Neste sentido, a vertente educativa no CJ propõe-se alcançar três finalidades complementares:
. A promoção do consumo responsável através da tomada de consciência individual e colectiva, com o objectivo de transformar o consumidor em cidadão activo;
. A defesa de uma economia solidária que incita as pessoas a associarem-se livremente para defenderem valores éticos, tendo em vista relações económicas e sociais mais justas;
. O apelo à mobilização em prol de campanhas que visam a adopção de regras locais e internacionais mais democráticas.

Sendo assim, o CJ enquadra-se na temática da Educação para o Desenvolvimento (ED). A Plataforma Portuguesa das Organizações Não-Governamentais de Desenvolvimento define-a do seguinte modo: “A ED é um processo dinâmico, interactivo e participativo que visa: a formação integral das pessoas; a consciencialização e compreensão das causas dos problemas de desenvolvimento e das desigualdades locais e globais num contexto de interdependência; a vivência da interculturalidade; o compromisso para a acção transformadora alicerçada na justiça, equidade e solidariedade e a promoção do direito e do dever de todas as pessoas - e de todos os povos - participarem e contribuírem para um desenvolvimento integral e sustentável”. Note-se que esta definição não tem a pretensão de ser um dado estático, a ED é um processo que acompanha as mudanças globais.

A ED utiliza as seguintes formas de intervenção, partilhadas igualmente pelo CJ:
. A sensibilização e mobilização da opinião pública para as problemáticas globais (organização de workshops, campanhas temáticas);
. A formação (por exemplo, o trabalho em escolas ou sessões de formação),
. O lobbying e a advocacia (pressão junto daqueles que têm responsabilidade de decidir – o primeiro visa objectivos de curto prazo como a adopção de legislação comercial internacional mais justa , enquanto que a segunda procura mudanças estruturais mais profundas, de longo prazo).

No passado mês de Fevereiro a organização de CJ francesa Artisans du Monde organizou um encontro internacional exactamente para debater e reflectir sobre a ED e o seu papel no CJ. Deste encontro saiu a conclusão de que a educação no CJ é um ramo da ED, pois vai além da simples informação sobre os produtos ou sobre os produtores, trabalha também nas áreas da formação, da sensibilização e do lobbying político. O grande objectivo da educação no CJ é de permitir a todos os cidadãos uma reflexão crítica e analítica da nossa sociedade em geral, e em particular do nosso modo de consumo, a fim de melhor compreender e actuar sobre a realidade à nossa volta.

Para que haja esta reflexão crítica é importante que a educação não se restrinja de forma alguma ao duelo “aquele que educa e aquele que é educado”, é um processo que apela à participação mútua, à partilha de conhecimentos ou ao diálogo entre diferentes pontos de vista.

Caro/a leitor/a, podemos adiantar-lhe que sempre que reflectir sobre estes temas, se os debater de forma construtiva, se repensar o seu modo de consumo ou tentar procurar outras saídas, estará a praticar Educação para o Desenvolvimento. Não há uma poção mágica e única de como “mudar o mundo”, mas estabelecer laços com pessoas ou grupos que partilhem opiniões comuns pode ser um meio para atingir este fim – escolas, associações, sindicatos, grupos informais ou os modernos grupos de discussão online são alguns exemplos. Envolver-se num processo de ED é adquirir uma compreensão crítica, solidária e global dos problemas do nosso mundo, de modo a contribuir para a mudança de valores e comportamentos da sociedade. É compreender para agir.

apoio:

Ficha técnica: Coordenação de projecto: Cores do Globo – Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Reviravolta - Associação para a Promoção do Comércio Justo | Apoios: IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento