#02 - 2006

 
 

 

 

 

boletim CJ (nºs anteriores)

 

boletim CJ #02 - 2006

O que é um preço justo?
Numa troca comercial feita com justiça parece óbvia a retribuição de um pagamento justo ao produtor – é por isso este o critério base de todas as organizações de comércio justo (CJ). Mas esse critério sugere inevitavelmente várias perguntas para quem quer saber como funciona o circuito do CJ. O que é um preço justo? Quem o define? Como evolui com as flutuações do mercado? Que custos contempla?

Seja qual for a organização que trabalhe em CJ, em qualquer parte do mundo, a resposta é rápida: está inscrita nos seus estatutos ou, por exemplo, nas condições comerciais base com que trabalha uma importadora de CJ.

Para o IFAT – International Fair Trade Association - um preço justo é definido “num contexto regional ou local e é acordado de forma participativa e dialogante. Cobre não apenas os custos de produção mas permite uma produção social e ambientalmente sustentável. Garante um preço justo aos produtores e tem em conta o princípio de igual pagamento para mulheres e homens. O CJ procura ainda ter um pronto pagamento e facilitar pré-financiamento para a produção.”

Já a Transfair USA, membro da FLO – Fair Trade Labelling Organizations International e entidade certificadora de produtos de CJ nos Estados Unidos, especifica que “o preço justo significa que os agricultores podem alimentar as suas famílias e que as crianças podem ir à escola em vez de trabalhar nos campos”.

Responder a estas questões exige que se fale de outro critério associado, que garante a prática destes bons princípios: a transparência na gestão e relações comerciais. Só assim se garantem contratos transparentes e decisões democráticas na formação do preço, além de se assegurar que as margens são claras e do conhecimento de todos os actores da cadeia de CJ, do produtor ao consumidor.

É por isso que a construção do preço de um produto de comércio justo é sempre uma questão fulcral para a política comercial de qualquer importadora de CJ e pode ser disponibilizada ao consumidor final como garante da transparência de todo o circuito. Não há margens descabidas, não há especulação, não há injustiça social e económica.

Na caixa podemos ver dois exemplos de estrutura de preços.
 

Preço Justo vs. Injusto

“Porque é que o preço convencional é tantas vezes injusto? Ou seja, porque é que o comércio convencional entre nações ricas e pobres é maioritariamente injusto? Primeiro, porque os preços de mercado definidos na bolsa de valores para os produtos tradicionalmente produzidos nos países menos desenvolvidos são demasiado baixos para que os produtores possam alguma vez receber um pagamento justo.

Mais: os países produtores de café, algodão, açúcar e outras matérias-primas agrícolas são também, quase todos, países economicamente menos desenvolvidos. Na sua maioria perdem o valor acrescentado da transformação dessas matérias-primas que tradicionalmente produzem porque apenas as exportam em bruto.

Em terceiro lugar não podemos também esquecer que, historicamente, assiste-se neste sector produtivo ao esmagamento do valor do trabalho do produtor – falamos do trabalho escravo nas grandes plantações de outrora e falamos hoje em dia de práticas salariais miseráveis - como resultado conjugado da pressão das multinacionais e da acção dos próprios estados, ansiosos por atrair investimento estrangeiro.

Mas além do preço justo, há dois outros critérios do CJ que justificam a preferência dos produtores. As relações económicas estáveis, permitindo escapar aos intermediários que pagam ao mais baixo preço - significa que o produtor nunca deixa de ganhar o suficiente mesmo quando os preços de mercado baixam muito. E o pré-financiamento garantido - permite investir na produção e sobreviver até à próxima colheita sem ter de recorrer ao endividamento. Estes três critérios intimamente ligados são oportunidades dadas aos produtores e a experiência destas quatro décadas de CJ mostra que a maioria tem sabido aproveitá-las.

Há uma última questão importante para o consumidor que escuta a expressão “pagar mais aos produtores”: isto equivale automaticamente a um aumento do preço final dos produtos de CJ face a produtos equivalentes do comércio convencional? Não, na maioria dos casos isso não acontece. Se as pequenas organizações do início se debatiam com dificuldades em reduzir custos de modo a garantir um pagamento justo ao produtor e não onerar o consumidor com esse gasto extra no preço final, neste momento as importadoras não apenas cresceram e se tornaram cada vez mais eficientes, como estabeleceram parcerias e fazem importações conjuntas.

Isso significa que o preço final ao consumidor não aumenta significativamente, seja pelas economias de escala conseguidas quando cresce e melhora a produção, seja pela poupança em intermediários e em publicidade, ou ainda porque a maioria dos produtos são de grande qualidade e produção orgânica – um exemplo conhecido pelo consumidor português é o dos produtos bio, que atingem preços inflacionados e nas lojas de CJ têm muitas vezes preços mais baixos.

Portanto, um “preço justo” significa que quando o consumidor entra numa loja de CJ pode adquirir produtos com um custo mais próximo do seu real valor – e não com preços distorcidos pela especulação, intermediários desnecessários e outros factores inflacionistas. Encontra, em suma, um preço justo para todos.

apoio:

Ficha técnica: Coordenação de projecto: Cores do Globo – Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Reviravolta - Associação para a Promoção do Comércio Justo | Apoios: IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento