#01 - 2006

 
 

 

 

 

boletim CJ (nºs anteriores)

 

boletim CJ #01 - 2006

A sinuosa estrada da liberalização económica
Quando pensamos na globalização económica e no benefício do crescimento do comércio mundial pela abertura dos mercados, temos de ter presente os graves desequilíbrios criados pela desigual repartição de riqueza. Os 48 países menos desenvolvidos, com 10% da população mundial, têm uma quota de mercado de 0,4% ao passo que os Estados Unidos da América (EUA) e a União Europeia (UE), com igual número de habitantes, controlam 50% do comércio internacional convencional.

Uma das causas deste fosso é que as economias menos desenvolvidas são dependentes de produtos agrícolas, com pouco grau de transformação, técnicas de produção obsoletas e baixa produtividade (cem vezes inferior à dos países ricos). Para que os seus preços possam ser competitivos, os cortes recaem sobre o custo do trabalho, a protecção social e os direitos laborais dos trabalhadores.

O paradoxo da liberalização é que ao mesmo tempo que pressiona uma abertura económica, as grandes potências mundiais como os EUA ou a UE protegem fortemente as suas produções. Temos como exemplo a Ajuda Directa à exportação, em que um produto é vendido ao exterior por um preço inferior ao custo de produção e a restante diferença é suportada pelo Estado. No fenómeno conhecido como Dumping estes produtos inundam os mercados mundiais sob a falsa capa da competitividade. Os países menos desenvolvidos ficam sem alternativa senão a de abandonar as suas culturas e recorrer às importações. Paradigmática é a produção de cacau no México: apesar de ser auto-suficiente nesta matéria, vê-se obrigado a importar para satisfazer a procura de um preço menor. A concorrência das multinacionais é esmagadora e são apenas cinco as empresas no Mundo a controlar esta produção, entre as quais a poderosa Nestlé. Como mudar esta situação?

A Organização Mundial do Comércio (OMC) nasceu com o intuito de ser responsável pelo bom funcionamento da liberalização económica. Mas provou ser ineficaz para lidar com os entraves à livre circulação impostos pelos grandes blocos económicos - a UE sempre foi livre para aplicar a Política Agrícola Comum (uma política de contornos proteccionistas) e os EUA sempre salvaguardaram alguns segmentos da sua agricultura, como os cereais, o algodão ou o arroz, ao mesmo tempo que pressionam os países mais pobres para abrir os seus mercados sem restrições, em troca de ajuda financeira, humanitária ou outra. Esta questão deveria ser equilibrada pelo Órgão de Resolução de Conflitos e pelas reuniões da OMC - mas o que acontece na realidade é que os países ricos contratam peritos que defendem bem as suas causas: nunca um país pobre ganhou um diferendo. E as assimetrias económicas agravam-se…

É que o comércio é uma das vias para o desenvolvimento dos países mas é necessário que seja sustentável, acompanhado de Desenvolvimento Humano (aumento dos níveis de escolaridade e de saúde, melhor repartição da riqueza, igualdade de oportunidades, defesa dos direitos dos trabalhadores) e do respeito pela biodiversidade e pelos ecossistemas.

Como alternativa ao comércio internacional convencional, o comércio justo surge com o objectivo de provocar transformações a longo prazo - alia à venda de produtos uma melhoria das condições dos produtores. A missão do CJ passa pelo importante trabalho de sensibilização e informação, com o fim de transformar os consumidores em actores de mudança e luta contra as injustiças do comércio actual. Que estes sejam capazes de desenvolver a capacidade crítica e procurar, no seu dia-a-dia, novas formas de combate à pobreza e exclusão mundial.

Ficha técnica: Coordenação de projecto: Cores do Globo – Associação para Promoção de Comércio Justo | Parceiros: CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Reviravolta - Associação para a Promoção do Comércio Justo | Apoios: IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento